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Diálogos

Diálogos

Publicado em: Diálogos

 

1.

Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar. Eu pegava pão integral da gôndola. Outros pães de farinha branca, bisnagas prováveis escorregaram da prateleira e caíram no chão. Ele vinha sem muita conversa, sem muito explicar. Em minha direção ele vinha. Na direção dos pães derramados no chão ele vinha. Eu pensei em voz alta:

– Nem encostei.

Ele se aproximou. Eu falei:

– Vai pegar?

Ele:

– Claro.

Eu:

– Não precisa, eu pego.

Quando vejo, ele está abaixado com as bisnagas na mão. Digo:

– Eu ia pegar, por que você pegou?

Ele:

– Porque tenho uma filosofia.

Antes que ele continuasse, interrompi:

– Filosofia? Também tenho uma. E ia pegar o pão do chão.

Ele muito orgulhoso de sua filosofia tentou falar mais alguma coisa do tipo minha filosofia é melhor do que a sua.

Eu, com o carrinho a dois passos afastados do filósofo de plantão, dos pães já na gôndola guardados, proferi a frase final deste diálogo comercial:

– Não, não é não. A sua filosofia não é melhor do que a minha, mas pega pão!

 

2.

Ao andar na rua, me encontro com uma senhora portuguesa que sempre vejo. Digo:

– A senhora é professora, não?

Ela:

– Sou portuguesa.

Eu:

– Mas isso não é profissão! Sou professor. Português é que não sabia que eu era.

Ela:

– Nem eu.

 

3.

Gaúcho:

– Acordado?

Paulista:

– Terminei um texto, e tu?

Gaúcho:

– Tô bebendo, lendo e ouvindo música.

Paulista:

– E tua mulher?

Gaúcho:

– Sonhando comigo, espero. Ela dorme cedo, ao contrário de mim.

Paulista:

– As mulheres dormem cedo, ao menos as sérias.

 

4.

– Sua mãe agora esquece de desligar o fogão.

– Pai, então você tem que lembrar ela de desligar o fogão.

Ele:

– E quem me lembra de lembrar ela?

– Pai, você lembra o nome da mãe?

– Lembro, claro, ainda.

– Mãe, você lembra o nome do pai?

– Lembro não apenas o nome, como sei o CPF dele. Vai que precisa.

 

5.

 

– As flores brancas e roxas não são violetas. São manacás.

– Quem é aquele gringo? Não é gringo não. É o Eduardo Sinkevisque.

 

6.

– Hoje vou ter que recorrer ao chuveiro frio do quintal.

– Vai, recorre ao chuveiro frio do quintal.

– É, vou ter que.

– E vai lavar louça?

– Vou.

– Roupa?

– Vou.

– Pra comer?

– Coisas frias.

– Hum.

– Vou fazer um tabule, vou fazer sagu cozido firme de leite em ponto ralo, com bastante caldo, pra comer gelado.

– E pra beber?

– Bastante chá mate forte, sem açúcar, com gelo e limão. E vou fazer água com hortelã.

– Hortelã do tabule?

– Do mesmo maço. Acho que vou ter que recorrer ao chuveiro frio do quintal.

– Vai, recorre ao chuveiro frio do quintal.

– Queria mesmo apagar o fogo do Pantanal.

– Vai, recorre ao chuveiro frio do quintal.

 

7.

Queria fazer com você um diálogo de pontuações e que não fossem pontuais, nem lacunares, nem breves. Um diálogo de pontuações que fossem suspensões de pensamentos, suspiros, respiros, pirações.

Mas, acho que Machado já fez isso. E pontuar é pastorear, tourear gigantomaquia de inundação de águas, comportas rompidas, lençóis encharcados. E de veredas não posso, nas veias abertas, ser a América Latina.

 

8.

– Está carregada a amoreira, não?

– É!

– A senhora tem que arrumar alguém para catar as amoras e fazer geleia. A senhora sabe fazer geleia?

– Não, deixa para as crianças e os pássaros comerem as amoras.

– E o sabiá-laranjeira cantando às 3:00 da manhã, hein?

– Ele acorda Raimundo e todo mundo.

– Ele avisa que o inverno está acabando.

 

9.

Então, pergunto ao barbeiro, assim que me sento na cadeira:

– Emagrecer o cliente você não emagrece, não é? Só corta cabelo, barba e bigode, não é?

Ao que ele me responde:

– Esse milagre não aprendi.

Sorrio, dizendo a ele ser melhor apenas fazer o que aprendeu. Não saí da barbearia menos gordo, porém de cabelos cortados, barbas e bigodes aparados. E quem diz que depois disso não estava mais leve?

 

10.

No almoço, converso:

– Posso te levar a lugares em Portugal. A sítios. Conheço razoavelmente Lisboa. Embora tenha morado no Porto, aquilo conheço menos. Talvez porque, morando, sempre pensei um dia vou ali, lá, acolá. Castelo do Queijo, foz do rio Douro, Parque da Cidade. Prefiro Coimbra. A Universidade, o Mondego. D. Dinis, a Rainha Santa. Diz a mística católica que ela costumava alimentar os pobres com pão. D. Dinis, seu rei-marido, era contra. Certo dia, a Rainha levava consigo um cesto com pães. Ao ver D. Dinis e a cavalaria, para não ser pega em flagrante a fazer donativos, transformou os pães em flores. Coimbra é isso: a transformação das coisas. A Universidade. O Mondego. Lisboa, ao narrar sobre, revisito. Castelo de São Jorge, Alfama; os Jerônimos, Mosteiro, Igreja. Pastelaria de Belém, a Torre de Belém. Ladeiras que dão na Ajuda. Elétricos, comboios.

Viagem descrita, ela me propões a Itália, mas não me diz (talvez porque não tenha deixado) os sítios, nem as cidades.

No almoço, enquanto a comida, as salivas, os sorrisos, os olhos baixos, os olhos muito acesos compartilhamos, o intercâmbio é feito. Azul do entorno dentro. Azul de dentro no entorno.

Traçado de mapas, destinos, baldeações, lugares, lugarejos. Há um desenho-desejo: percorrer a vida a dois, com os custos de nós dois, as levezas, os pesos. Evidência maior para além do tempo: as vivacidades descritas são pupilas a rodar, a inchar, desinchar. Matéria a se abrir, a se fechar. Tudo por causa da Lua em Touro, cheia de uma represa não contida.

No almoço, me alimento dela, ela de mim. Vamos para a Europa antes das falências, ou após os econômicos soterramentos. Viver do azul vivíssimo, e dos vermelhos dos contratempos. No almoço, não me alimento. Apenas da fantasia da invenção dos dias.

– Quais as cidades da Itália por meio do roteiro dela? Quais os lugares, sítios?

Eu quero que, para mim, ela os revisite. Dizer deles, para mim, com olhos de testemunha, com olhos vívidos, que só os dela azuis podem dizer. No almoço, eu me rendo. Refém de uma alegria alegriazinha. Passageiro de mim mesmo, sabendo ser canoro eu-canoeiro. Sabendo ser passageiro.

 

11.

Raimundo:

– Para isso precisa uma chave L.

Eu:

– Ih, não tenho.

Raimundo vai buscar.

Quando chega, eu:

– Ah, chave de bicicleta!

Raimundo:

– aeeeee!

Eu:

– Tá pensando o quê? Eu andei muito de bicicleta nesta vida. Usei muito chave L.

 

 

 


Créditos na imagem: Constantin Guys, Two Seated Women (Século XIX) / Reprodução.

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Eduardo Sinkevisque

Eduardo Sinkevisque é doutor em Letras: Literatura Brasileira (FFLCH/USP). É sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Retórica. Publicou o e-book Mar dos Dias (Árvore Digital, 2018). Publicou o livro Tratado Político (1715) de Sebastião da Rocha Pita – Estudo Introdutório, transcrição, índices, notas e estabelecimento do texto por Eduardo Sinkevisque (EDUSP, 2014). Foi pesquisador Residente na Fundação Biblioteca Nacional, cuja pesquisa foi em diários. Eduardo publica textos em seu blog, o blogmenos (www.blogmenos.tumblr.com) e colabora em várias revistas acadêmicas e literárias. Trabalha em consultoria de texto e de pesquisa na área de Humanas. Para contactá-lo: instagram @dudasinke e email esinkevisque@hotmail.com.

Fonte: Diálogos
Feed: HH Magazine
Url: hhmagazine.com.br
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