Enquanto a Copa do Mundo impulsiona as apostas esportivas, a mídia ignora seus riscos
Publicado em: Enquanto a Copa do Mundo impulsiona as apostas esportivas, a mídia ignora seus riscos
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Por
Silvia Higuera -
1 julho, 2026
Summary
A cobertura da Argentina ao México celebra o crescimento das apostas online. Mas dedica menos espaço a examinar uma indústria cujo crescimento acelerado levanta questões sobre vício e saúde pública.
Talvez a aposta mais segura da Copa do Mundo Masculina de Futebol seja que as plataformas de apostas sairão ganhando.
Espera-se que, durante o torneio, segundo uma estimativa, mais de US$50 bilhões sejam apostados em todo o mundo. E na América Latina, muitos veículos de comunicação embarcaram no boom, reportando acordos de patrocínio, odds de apostas e previsões com um entusiasmo normalmente reservado aos próprios jogos.
No Brasil, a Folha de S.Paulo noticiou: “Está para começar a Copa das apostas”. No México, o El Financiero detalhou as odds para os jogos da seleção. Na Argentina, o La Nación classificou os favoritos para levantar a taça segundo as casas de apostas.
O que essas e muitas outras reportagens raramente investigam é o negócio por trás do negócio: uma indústria cuja rápida expansão está ligada a importantes riscos de dependência e a preocupações crescentes de saúde pública.
“Acho que nós, da mídia, falamos pouco sobre os riscos que as apostas esportivas trazem”, disse Ronny Suárez, jornalista colombiano especializado em saúde pública, à LatAm Journalism Review (LJR). “Qualquer cobertura sobre apostas esportivas … precisa levar em conta as considerações sobre o problema de saúde pública que é a ludopatia nas pessoas”.
‘A Copa das apostas’
A Copa do Mundo – e as apostas – atraem grandes audiências que inspiraram criatividade por parte dos meios de comunicação.
O jornal econômico colombiano La República desenvolveu um modelo de inteligência artificial com o objetivo de cobrir o evento de forma inovadora, disse à LJR Tatiana Arango, macroeditora digital do veículo. Esse modelo faz previsões de todos os jogos da Copa, explicou.
Os textos, publicados no especial “A economia da Copa”, detalham possíveis placares, possíveis artilheiros e até quantos cartões amarelos e intervenções do VAR (Árbitro Assistente de Vídeo) podem acontecer na partida. Embora o texto não convide a apostar e não pareça ser patrocinado por nenhum site de apostas, na conta do veículo no X os textos são promovidos com mensagens como: “Pensa em apostar no jogo entre Alemanha e Paraguai?”. Artigos individuais publicam as probabilidades para partidas específicas.
O jornal El Tiempo, também da Colômbia, tem uma redação de apostas, que “conta com uma equipe de profissionais altamente capacitados, especializados em análise e estratégias de apostas”, segundo seu site. “Décadas de experiência no jornalismo esportivo e nos meios de comunicação oferecem informação confiável e atualizada”.
Um dos artigos mais recentes dessa redação é um texto explicativo intitulado “Apostas Copa 2026: tudo o que você precisa saber e odds atualizadas”. O texto, que contém “recomendações exclusivas para suas apostas na Copa”, não faz referência aos possíveis perigos, como as dependências.
Para Arango, do La República, as informações produzidas pelos meios de comunicação são insumos para que as pessoas tomem decisões. Nesse sentido, disse, funcionam como uma espécie de “cartório”, que mostra a realidade e as pessoas tiram suas próprias conclusões.
“Cada dia há mais ofertas de plataformas que misturam notícias com apostas no estilo Polymarket, situação que foge da intencionalidade jornalística”, disse Arango. “Os meios simplesmente informam. E essa informação é usada para o que seus consumidores desejarem”.
A LJR também pediu ao El Tiempo comentários sobre as discussões em torno da publicação desses artigos, mas até o fechamento desta matéria não recebeu resposta.
Um problema de saúde pública e mental
Os textos normalmente não incluem informações ou alertas sobre os riscos para a saúde pública. Suas considerações além das apostas têm relação com regulações internas, ou seja, se os sites operam legalmente no país.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) alertaram sobre o aumento das apostas online com efeitos nocivos para a saúde mental, economia e relações sociais.
Segundo dados dessas organizações, 2% da população do continente americano apresenta transtorno relacionado às apostas. Estima-se que sejam quase 70 milhões de pessoas.
“As apostas eletrônicas estão sendo investigadas como uma nova dependência comportamental”, disse à LJR Jeffrey González Giraldo, médico psiquiatra colombiano, especialista em dependências e saúde pública. “Cada vez surgem mais estudos, mais evidências mostrando que definitivamente existe um padrão de dependência”.
Embora a ludopatia — a compulsão por apostar — tenha sido identificada como um transtorno psicológico há mais de quatro décadas, as apostas eletrônicas têm um fator diferencial por causa da tecnologia: não existem limites físicos nem de horário. Nesse sentido, é muito mais fácil acessar esses espaços, explicou González.
González afirmou que vê cada vez mais casos em seu consultório e entre colegas de dependência em apostas online.
“E isso é importante: está muito associado a transtornos mentais”, disse o especialista. “São pessoas com depressão, pessoas com alto risco de suicídio e muitas sofrem de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade”.
Esses transtornos devem ser tratados paralelamente à dependência porque não está claro se a dependência os gera ou se a presença deles torna uma pessoa mais propensa a se tornar dependente, disse.
Assim como considera Suárez, para González o mínimo em coberturas jornalísticas que envolvam apostas ou modelos preditivos deveria ser um aviso sobre apostas compulsivas.
“É o mínimo. Mas nem sequer existe esse aviso”, disse González. “Acho que os jornalistas deveriam assumir uma posição e dizer: ‘olha, estou mostrando previsões, mas use isso com responsabilidade, não use para apostar, isso não significa necessariamente que será realidade’. Porque as pessoas podem considerar essa informação como verdadeira e, de fato, isso não levar a lugar nenhum e gerar erros”.
Benefícios para a economia, regulação difícil
Na Colômbia, alguns meios falam dos benefícios que as apostas trazem para a economia.
Em uma reportagem do serviço de streaming Ditu Negócios sobre os impactos positivos das apostas, Evert Montero, presidente da Fecoljuegos — entidade que representa a indústria de jogos de azar na Colômbia — afirmou que neste ano são esperadas mais de 122 milhões de apostas. Em números, isso representaria 5,3 trilhões de pesos colombianos em apostas, não em lucro, explicou.
Em 2024, autoridades econômicas anunciaram que o Produto Interno Bruto (PIB) da Colômbia foi impulsionado em parte pelas apostas online. Segundo cálculos de 2025, essa atividade representa 0,18% do PIB do país. Da mesma forma, parte do dinheiro das apostas e de outros jogos de azar é direcionada ao setor de saúde. Inclusive, a Superintendência de Saúde promove as apostas legais como patrocinadoras da saúde.
“Obviamente isso impacta na regulação”, disse González. “Ninguém vai querer regular um negócio tão lucrativo”.
Por outro lado, a seleção colombiana de futebol e a liga nacional têm patrocínio da BetPlay e seus jogadores são usados para promover o site. No México, a seleção nacional também é patrocinada por um site semelhante, Caliente.mx. E na Argentina, o goleiro da seleção Emiliano Martínez promove apostas.
Há tentativas de ajudar com o tema. No México, a Universidade Nacional Autônoma do México emitiu um alerta sobre as apostas durante a Copa. O Chequeado, um site argentino, está acompanhando a regulação das apostas e do esporte.
O Brasil esteve nas notícias nos últimos dias depois que o Ministério da Justiça anunciou uma investigação contra a CazéTV por publicidade de apostas durante transmissões de jogos. Segundo as autoridades, a publicidade poderia violar a regulação do país por ser considerada publicidade abusiva. A CazéTV, uma plataforma de streaming que se tornou líder, anunciou por sua vez que modificará a publicidade e adotará um modelo “mais conservador”.
Suárez considera agravante que os próprios jornalistas sejam rosto de apostas ou até recebam patrocínio sem anunciá-lo.
“Nós, jornalistas, temos a responsabilidade de sempre alertar sobre os riscos”, concluiu Suárez.
Esse artigo foi traduzido com assitência de IA e revisado por Leonardo Coelho
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