Frances Robles, veterana correspondente de Cuba, fala sobre como faz reportagens a partir das margens
Publicado em: Frances Robles, veterana correspondente de Cuba, fala sobre como faz reportagens a partir das margens
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Por
Jorge Valencia -
20 Maio, 2026
Summary
Robles há muito tempo vem narrando os ciclos recorrentes de esperança, repressão e promessas de mudança em Cuba. Ela conversa com a revista LatAm Journalism sobre uma história que parece não parar de se repetir.
Muita coisa mudou em Cuba neste ano, grande parte ligada à pressão renovada dos Estados Unidos. A Venezuela, um dos aliados mais próximos da ilha, reduziu drasticamente o apoio financeiro e o fornecimento de petróleo que antes oferecia. Governos de toda a América Latina passaram a romper vínculos com as missões médicas cubanas no exterior. E, em uma rara admissão pública, o presidente Miguel Díaz-Canel confirmou que seu governo mantém conversas com Washington.
Poucos jornalistas acompanharam essa silenciosa reconfiguração tão de perto quanto Frances Robles. Sediada na Flórida, Robles cobre Cuba e a região há mais de 25 anos, muitas vezes a partir de locais onde o jornalismo independente é difícil — quando não perigoso — de exercer. Começou a carreira no Miami Herald, onde chefiou os escritórios em Manágua e Bogotá. Em 2013, ingressou no The New York Times, cobrindo América Latina e Caribe. Entre colegas, é conhecida como “Frenchie” ou a “Encantadora de Cuba”.
Robles, 57 anos, nascida em Nova York (com o sotaque que comprova) e de origem porto-riquenha, já recebeu vários prêmios, incluindo o Maria Moors Cabot, em 2024, pelo jornalismo de excelência nas Américas. Nesta conversa com a LatAm Journalism Review (LJR), editada por clareza e concisão, ela fala sobre reportar Cuba à distância, ler nas entrelinhas da mídia estatal e a importância de aprender a dirigir carro com câmbio manual.
Em 2024, Frances Robles recebeu o Prêmio Maria Moors Cabot por seu excelente trabalho jornalístico nas Américas. (Foto: Chris Taggart, Universidade de Columbia)
LJR: Em março, você publicou uma matéria com vários furos: informou que o governo Trump quer tirar Miguel Díaz-Canel do poder, que prefere um regime complacente em vez de mudança total e que um dos netos de Raúl Castro provavelmente é o interlocutor nas negociações com o secretário de Estado, Marco Rubio. O que pode contar sobre reportar dentro de governos que parecem caixas-pretas?
Robles: É muito difícil. Não tenho dicas mágicas para lidar com essa caixa-preta, porque o governo cubano é muito fechado. Não sou uma das pessoas a quem eles dão visto, então você precisa trabalhar ao redor. Falar com quem fala com eles. Ajuda estar na área há muito tempo: se telefono para alguém, é provável que já tenha ouvido meu nome ou me dado entrevista há 20 anos. Mas, sinceramente, é bem complicado.
LJR: Por que diz que não recebe visto do governo cubano?
Robles: Cuba controla rigorosamente quem entra para reportar. Isso sempre foi um grande obstáculo para qualquer jornalista que cobre a ilha.
LJR: Quando foi a última vez que pôde fazer reportagem em solo cubano?
Robles: O governo me concedeu visto durante a visita do presidente Obama em 2016. Foi fascinante, porque fazia sete anos desde a visita anterior — uma vida inteira. Havia restaurantes bacanas, gente “descolada”. Pensei: “Que país é este?”
LJR: Havia uma classe alta? Não imaginava essa hierarquia em Cuba.
Robles: Existia uma classe alta, ou pelo menos existiu por um breve momento. Não sei se ainda existe. Provavelmente todos moram em Miami e Madri agora. Mas, em 2016, havia um verdadeiro sentimento de esperança, otimismo e entusiasmo no ar. Dava para sentir. As pessoas pensavam: “Uau, as coisas vão mudar.” Minha impressão é que existe um sentimento igualmente forte agora, mas por razões muito diferentes. Acho que há medo e excitação ao mesmo tempo, no sentido de que muita gente sente que algo vai mudar, mas está assustada com o que vai ter de enfrentar antes que isso aconteça.
LJR: Como foi reportar nas ruas naquela visita?
Robles: Foi incrível. Conversamos com as pessoas, passamos um tempo em suas casas, e eu fiz uma reportagem da qual me orgulhei, em que conversei com muitos jovens sobre essa decisão de ficar ou ir embora. Alguém abriu uma padaria, outro cara tinha um serviço de entrega de comida e eles estavam realmente animados com isso. Foi uma oportunidade maravilhosa.
LJR: Como entrou na ilha em 2009?
Robles: Fui a um show. O Juanes estava fazendo um grande show gratuito, e aquilo foi um acontecimento enorme. Também tentei fazer outras matérias que provavelmente eram um pouco ambiciosas demais. Tentei entrevistar pessoas que os serviços de segurança do Estado provavelmente já tinham se infiltrado. Então recebi uma ligação amigável. Na verdade, eles foram muito gentis. Foram amigáveis e profissionais. Ligaram para o lugar onde eu estava hospedado. Disseram: “Você não está aqui para trabalhar, certo?” Eu respondi: “Ah, mas vou aproveitar o show.” Eles disseram: “Ok, mas você não está aqui para trabalhar, certo?” Eu já estava programado para ir embora mesmo, então não chegaram a me expulsar. Mas já fui expulsa uma vez antes, em 2000.
LJR: E o que aconteceu então?
Robles: Na época, eu nem era a repórter oficial de Cuba no Miami Herald. Era apenas uma novata. Foram duas viagens de duas ou três semanas. Entrei com visto de turista e, olhando para trás, não acredito nas coisas que fiz. Eu pretendia encontrar a família de Elián González e fazer entrevistas na cidade dele. Escrevia minhas matérias à mão e as enviava por fax do hotel. (González hoje é membro da Assembleia Nacional.)
E um dia, eu estava no hotel e íamos para a cidade onde Elián González morava, Cárdenas, a mais ou menos uma hora e meia de Havana. Eu estava fazendo o check-out e o carregador de malas estava super nervoso, repetindo: “Quando vocês vão sair? Me avise que eu levo as bagagens.” De repente apareceu um motorista para nos buscar; então vejo o carregador correndo, ele diz algo ao taxista e o taxista se volta para mim: “Com licença, já volto, preciso atender um telefonema.” E eu: “Você é taxista e tem um telefonema aqui no meu hotel?!” Lembro que estava ao telefone com um editor e disse: “Aquí pasa algo” [Tem algo acontecendo aqui]. O táxi nos levou até a locadora de carros e nos deixou lá. De repente, a locadora se encheu de homens de uniforme militar. Perguntaram: “Posso ver seus documentos, por favor?” E eu: “Como assim? Só estou alugando um carro, sou turista.” Eles sabiam exatamente quem eu era. Fiquei detida por umas seis ou sete horas.
Deixaram-me voltar ao hotel, mas retiveram meu passaporte. Às cinco da manhã voltaram, me levaram sob custódia, literalmente me colocaram num avião e, só então, devolveram meu passaporte. Ainda cobraram a corrida de táxi até o aeroporto — com recibo e tudo.
LJR: Um antigo editor seu me disse que cobrir Cuba é o melhor e o pior posto no Miami Herald, por causa do nível de escrutínio. Como era fazer essa cobertura para os leitores cubano-americanos do sul da Flórida?
Robles: Engraçado — eu esperava um escrutínio bem maior. A única matéria que lembro de ter gerado uma reação enorme foi durante os anos de Hugo Chávez na Venezuela. Chávez bancava cirurgias oftalmológicas e outros programas em Cuba. E era verdade, eles faziam mesmo. Mas levei pancada porque parecia que você não podia reconhecer que alguém estivesse fazendo algo bom; os leitores achavam que era propaganda populista.
Para mim, era o pior trabalho no Miami Herald porque, sendo correspondente de Cuba, você não conseguia pisar na ilha. Como repórter estrangeiro, isso é o seu ganha-pão: estar no local, testemunhar os fatos. Não estar ao telefone falando com as pessoas. Esse é o grande desafio de cobrir Cuba. Era um desafio há 20 anos e continua sendo hoje. Você precisa fazer milhões de ligações e enxergar tudo pelo olhar dos outros.
LJR: Qual o papel dos jornalistas locais no seu trabalho?
Robles: Eles desempenham um papel enorme. Muitas vezes, teremos uma dupla assinatura com um jornalista local. Às vezes estou lá com eles, e às vezes trabalho com eles remotamente. No Haiti, preciso contratar um jornalista local para estar comigo. Ele me acompanha em todos os lugares. Ele me dá ideias. Ele me ajuda a agendar entrevistas. Ele é meu tradutor, porque eu não falo crioulo nem francês.
Muitas vezes, especialmente como correspondente, não se espera necessariamente que você dê um furo de reportagem, mas você está observando de longe e dizendo: “Uau, veja essa coisa que continua acontecendo. É melhor eu ir até lá para ver o que está acontecendo.” Então você também está contando com o trabalho inicial que foi publicado na imprensa local. Isso é inestimável.
LJR: Quanto consome veículos estatais?
Robles: Eu provavelmente deveria estar consumindo mais. A imprensa do governo cubano é, na verdade, muito útil. O governo cubano não dá entrevistas nem responde a nenhum pedido, mas, se você procurar bem na mídia sancionada pelo Estado, normalmente consegue encontrar os tipos de citações que queria. Às vezes, eles cobrem problemas reais. Estou fazendo uma matéria agora sobre o acúmulo de lixo em Cuba. Eles não estão me dando entrevistas sobre o lixo se acumulando. Mas, se você olhar o Granma, se você olhar o Cuba Debate, consegue encontrar artigos bem aprofundados em que eles conversaram com a comunidade e com os funcionários municipais responsáveis pela coleta de lixo. Às vezes, eles fazem autocrítica. De vez em quando, pode ser uma citação sincera. Então você precisa ler isso para que o ponto de vista deles esteja refletido nas matérias.
LJR: Seu primeiro texto no Miami Herald sobre Cuba saiu em 1993; são 30 anos de cobertura. Como é lidar com anúncios repetidos de “agora vai haver mudança de regime”?
Robles: Sim, é meio engraçado. Estávamos falando sobre a GAESA, o conglomerado militar, e alguém estava pensando em escrever uma matéria relacionada a isso. Então fui procurar e havia uma matéria que eu escrevi em 2006. E era exatamente esse tipo de momento de: “Sim, sim, sim. Agora vai acontecer” porque 2006 foi o ano em que Fidel [Castro] adoeceu pela primeira vez. E então, quando ele renunciou oficialmente em 2008, foi: “Oh, ahora sí” [Ah, agora vai]. E depois ele morreu em 2016 e foi: “¡Ahora sí!” É engraçado quando procuro recortes e encontro um que tem praticamente a mesma manchete da que estou prestes a escrever.
LJR: E é uma matéria que você mesma escreveu.
Robles: Exato. Então preciso me esforçar para não ser a velha da reunião, revirando os olhos e dizendo: “É, já fizemos isso antes.” E, para ser justa, desta vez parece diferente. Fiz uma matéria em que perguntei a todos os especialistas entrevistados a mesma coisa: “Isso parece diferente?” E absolutamente todos disseram: “Sim, desta vez parece realmente diferente.”
LJR: Então, quando você vê um eco na sua própria reportagem, como faz para torná-la nova?
Robles: Não importa. Ninguém se lembra do que você escreveu há 20 anos. Tenho sorte quando as pessoas se lembram de algo de três anos atrás! Estou terminando a edição de uma matéria sobre a questão das propriedades em Cuba. Quando empresas americanas e cidadãos americanos deixaram Cuba, deixaram suas casas para trás, e então o governo as tomou. Os cubanos também saíram e perderam suas propriedades. Nunca as recuperaram. Bem, fiz praticamente a mesma matéria 10 anos atrás. E provavelmente já a tinha escrito 10 anos antes disso.
LJR: Por que você acha que há tantos ecos na sua cobertura?
Robles: Porque muitas das questões não mudaram. Ainda existem presos políticos, ainda há propriedades confiscadas, ainda não houve eleições democráticas. Até que tudo isso seja resolvido, você vai continuar escrevendo a mesma história repetidas vezes. E precisa continuar escrevendo, porque ainda é importante.
LJR: Esta entrevista ficou um pouco longa, então obrigada pela sua paciência. Há algo mais que você gostaria de acrescentar?
Robles: Você viu a matéria que saiu sobre mim no The New York Times outro dia?
LJR: Vi, sim.
Robles: Eles não mencionaram que eu fiz autoescola. Com mais de 30 anos, fiz autoescola em Manágua para aprender a dirigir carro com câmbio manual.
LJR: O que foi que aconteceu?
Robles: Fui alugar um carro em Cuba, e ele era manual, e eu não sabia dirigir.
LJR: Isso deve ter sido frustrante.
Robles: Naquele dia, provavelmente contratei um motorista, então o problema foi resolvido. Mas a questão da história era que uma enorme parte do nosso trabalho como correspondente estrangeira é a logística em que ninguém pensa. Vai haver Internet? Você vai conseguir enviar a matéria? Como ir do ponto A ao ponto B? É seguro ir do ponto A ao ponto B? Há muitos detalhes pequenos e grandes que você precisa resolver antes de chegar à história. Tipo: você sabe dirigir o carro? Então fiz autoescola duas vezes. Uma quando era adolescente, para dirigir um carro comum, e outra quando adulta, para dirigir carro manual. Eu nunca mais ia entrar num carro alugado e descobrir que era manual sem saber dirigir. Nunca mais deixaria isso acontecer comigo.
Este texto foi traduzido com ajuda de IA e revisado por Leonardo Coelho
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