Idosos na Colômbia voltam à sala de aula para aprender a enfrentar a desinformação
Publicado em: Idosos na Colômbia voltam à sala de aula para aprender a enfrentar a desinformação
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Por
Silvia Higuera -
14 julho, 2026
Summary
Em Manizales, uma das cidades do país com maior proporção de pessoas com mais de 60 anos, um curso de alfabetização midiática ensina como verificar informações.
Para Ángela María Henao Toro, de 69 anos, chamou a atenção a informação que circulava por uma corrente de WhatsApp afirmando que a temperatura de sua cidade, Manizales, na Colômbia, poderia chegar a 50 ºC como consequência do fenômeno El Niño.
Manizales, uma cidade no coração das montanhas da região cafeeira do país, costuma ter uma temperatura média de 16 ºC. A corrente, com supostas informações da Defesa Civil, trazia uma série de recomendações para se preparar para a onda de calor, como evitar encher o tanque de gasolina dos carros para prevenir explosões.
A corrente, que vários veículos de comunicação já confirmaram ser falsa, segundo verificações feitas por sites de diferentes países da América Latina, circula desde 2023 e volta a aparecer sempre que chega o El Niño.
Henao Toro, no entanto, já contava com ferramentas que lhe permitiram duvidar e distinguir entre informações falsas e verificadas graças ao programa “Alfabetização digital contra a desinformação”, oferecido como parte do projeto Universidade Intergeracional para idosos da Universidade de Caldas.
“Por isso o curso me pareceu muito interessante, porque realmente me ajudou a observar e perceber o que a gente vê nas redes, o que é real e o que não é”, disse Henao Toro à LatAm Journalism Review (LJR). “Achei muito importante.”
Como parte do curso “Alfabetização digital contra a desinformação”, os alunos visitaram o jornal La Patria, em Manizales, na Colômbia. Lá, foram recebidos pelo diretor do jornal, Fernando-Alonso Ramírez Ramírez. (Foto: Cortesia de Sania Salazar)
Henao, bibliotecária de profissão e já aposentada, fez parte da quarta turma da Universidade Intergeracional, que em junho completou um ano oferecendo cursos em Manizales como resposta a uma realidade: Manizales é uma das cidades colombianas com maior proporção de pessoas idosas.
Segundo o Observatório de Planejamento e Território da Prefeitura de Manizales, 21% da população da cidade tem hoje mais de 60 anos, percentual acima da média nacional. E a projeção é que esse segmento da população continue crescendo.
Em seu primeiro ano, a Universidade Intergeracional ofereceu pelo menos 60 cursos gratuitos — em áreas como arte, história, tecnologia, natureza e saúde — certificando mais de 2.000 pessoas idosas. Os participantes, independentemente do curso escolhido, também recebem uma capacitação sobre saúde mental.
“Isso nos fala de algo muito valioso: as pessoas idosas querem continuar aprendendo, mas também querem continuar conectadas com outras pessoas”, disse à LJR Darío Arenas Villegas, vice-reitor de Extensão Universitária da Universidade de Caldas. “E este programa demonstrou que esses espaços ajudam a combater o isolamento indesejado, fortalecem o bem-estar e a saúde mental e incentivam a participação ativa em uma agenda cultural e de lazer.”
Desinformação: um desafio em qualquer idade
Embora a desinformação afete toda a sociedade, a população idosa é uma das mais vulneráveis, ao lado das crianças, ao consumi-la. Algumas pesquisas indicam que tendem a consumi-la porque ela reforça suas crenças, mas também é verdade que essa população é mais suscetível a golpes on-line.
Compreendendo os riscos que a desinformação representa no mundo atual, Arenas disse que pensaram em um curso para combatê-la.
“Mais do que ensinar a usar ferramentas para verificar uma notícia, queremos que as pessoas desenvolvam um olhar mais crítico, que façam perguntas antes de acreditar ou compartilhar um conteúdo”, disse Arenas. “E, em um momento como o que a Colômbia vive, em que importantes decisões públicas estão em debate, é fundamental refletir sobre a informação que consumimos, mas também sobre aquela que compartilhamos e ajudamos a disseminar.”
O parceiro nessa formação foi o veículo digital nativo Pensé que ‘VOZ’ sabías, sediado em Manizales. Fundado há dois anos, o veículo incorpora informações de fiscalizações cidadãs (pessoas voluntárias que monitoram o uso do dinheiro público) em suas reportagens e oferece alfabetização digital contra a desinformação.
“Misturamos as técnicas do jornalismo investigativo com esse acompanhamento feito por essas pessoas em campo”, disse à LJR Sania Salazar, fundadora do veículo e que anteriormente trabalhou no site de checagem ColombiaCheck. “Isso também tem um objetivo secundário: estamos convencidos de que, se fizermos jornalismo com os cidadãos, e eles souberem como funciona esse processo, cairão menos na desinformação.”
Seus workshops são voltados para jovens em idade escolar e jovens adultos. A experiência de oferecer essa capacitação a idosos foi extremamente gratificante, disse Salazar.
“É algo lindíssimo, maravilhoso. Temos uma visão da velhice cheia de preconceitos, mas vou dizer apenas isto: eu vou às aulas e quem me enche de energia são eles”, afirmou. “São extremamente interessados, pontuais, dedicados, perguntam tudo, topam tudo e, além de ser um espaço de aprendizagem, acaba virando um grupo de amigos.”
O curso, com 48 horas de duração, concentra-se em oferecer ferramentas básicas para pessoas que não são jornalistas. Salazar mostra exemplos de como são feitas as verificações em veículos especializados e depois propõe atividades como brincar de ser desinformadores para que eles aprendam entre si a verificar informações e, principalmente, entendam como funciona a desinformação.
“Tenho me dedicado muito a explicar como a desinformação e as redes manipulam as emoções”, disse Salazar. “Dar ferramentas práticas e técnicas, mas também orientações sobre quais veículos são de qualidade e conscientizá-los sobre como suas emoções são manipuladas.”
Foi exatamente isso que Luz Marina Hoyos Botero, de 72 anos, aprendeu. Para ela, o curso de alfabetização digital foi o quinto curso realizado na Universidade Intergeracional. Ela se interessou pelo tema para entender como as notícias eram produzidas e quais eram verdadeiras.
Visita de alunos do curso “Alfabetização digital contra a desinformação” ao jornal La Patria, em Manizales, Colômbia. (Foto: Cortesia de Sania Salazar)
“Foi realmente uma experiência maravilhosa. Aprendi que muitas notícias nas redes sociais são falsas e eu tinha o hábito de compartilhá-las, principalmente aquelas que despertavam medo ou preocupação”, disse Hoyos à LJR.
Agora, Hoyos verifica informações em veículos como Pensé que ‘VOZ’ Sabías sempre que recebe conteúdos suspeitos, “antes de acreditar neles e compartilhá-los”.
Ela também foi uma das duas estudantes escolhidas para o primeiro intercâmbio internacional com a Universidade de Guadalajara, onde conheceram o trabalho dessa instituição com pessoas idosas.
Aproximação de veículos confiáveis
Henao ficou surpresa com o volume de desinformação que circula nas redes sociais e com o alcance que a IA pode ter.
“Outra coisa que me surpreendeu é que os influenciadores ou os vídeos que a gente vê no YouTube colocam um título muito chamativo, e a gente abre o vídeo e [são] mentiras que não têm nada a ver com o que diz o título [e que] colocam no texto para fazer a gente abrir”, disse Henao. “Quando a gente aprende a perceber que existem fontes confiáveis nas quais pode acreditar, tudo muda, porque passamos a abrir ou acreditar apenas nas informações que nos estão sendo dadas por essas fontes.”
Esse é justamente um dos objetivos de Salazar em seu curso: que seus alunos conheçam veículos nos quais possam confiar.
“Eu não digo o que devem ler ou consumir, apenas apresento esse panorama para que eles escolham”, disse Salazar. “Recomendo uma lista de 15 ou 20 veículos colombianos e também latino-americanos. E pergunto: ‘Vocês conheciam esses veículos?’. ‘Não, não fazíamos ideia de que isso existia’. Além disso, a maioria é digital e, claro, […] pensamos que todo mundo está nas redes, mas não é bem assim. Esse segmento da população às vezes acaba ficando muito de fora de novas iniciativas digitais de grande qualidade, simplesmente porque nem sabe que elas existem.”
A Universidade Intergeracional já está preparando a quinta turma, cujas inscrições serão abertas no próximo dia 14 de julho. Um dos 20 cursos será o de alfabetização digital contra a desinformação. E o aprendizado não termina aí: alguns ex-alunos mantiveram o hábito de se reunir, formando um clube de leitura mensal para analisar em detalhes a cobertura publicada por algum veículo naquele mês.
Esse texto foi traduzido com assistência de IA e revisado por Leonardo Coelho
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