infoTRAUMA #42
Publicado em: infoTRAUMA #42
Imagem | Escola Portal Sorocaba
As crianças e jovens em situação de acolhimento residencial apresentam com frequência percursos de vida marcados por vulnerabilidades diversas, nomeadamente experiências de trauma, negligência, violência, abandono e exclusão social. Estas vivências tendem a comprometer o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional, influenciando a autoestima, a confiança interpessoal e a capacidade de projetar o futuro. Neste contexto, torna-se fundamental desenvolver intervenções e ferramentas que promovam não apenas a aquisição de conhecimentos, mas também a reconstrução da identidade, a participação ativa e a capacidade de atribuir significado às experiências vividas, e é aqui que entra a Filosofia para Crianças (FpC), como uma ferramenta com um potencial significativo neste domínio.
Para jovens cujas trajetórias foram frequentemente marcadas pela perda de controlo sobre as suas próprias vidas, a FpC constitui uma oportunidade de reafirmar a sua capacidade de pensar e participar ativamente na sociedade. Nas comunidades de investigação filosófica, todas as perguntas são consideradas legítimas e todos os participantes são reconhecidos como sujeitos capazes de pensar e produzir conhecimento. Esta valorização da voz individual favorece a construção da autoestima e da identidade, permitindo que a criança possa afirmar-se como pensadora ativa. Simultaneamente, a prática da argumentação promove a autonomia intelectual e a capacidade de formular juízos próprios, contrariando atitudes de passividade ou dependência.
Um segundo eixo relaciona-se com a criação de um espaço seguro para a abordagem indireta do trauma. Falar diretamente sobre experiências de abuso, negligência ou abandono pode ser doloroso e reativar estados emocionais difíceis. A metodologia da FpC recorre frequentemente a narrativas, imagens, filmes ou histórias que funcionam como mediadores simbólicos da reflexão, permitindo que, através destes estímulos, temas como a justiça, a perda, o medo, a confiança ou a pertença possam ser explorados de forma segura. Assim, os jovens conseguem pensar sobre questões existenciais e emocionais sem necessidade de expor diretamente as suas experiências pessoais, facilitando a atribuição de significado às vivências.
A FpC favorece igualmente o desenvolvimento da regulação emocional e da razoabilidade. Jovens com histórias de trauma apresentam frequentemente dificuldades de autorregulação, impulsividade ou respostas agressivas associadas a estados de alerta permanentes. O formato da comunidade de investigação exige escuta, ponderação e reflexão antes da intervenção, promovendo a passagem do impulso à argumentação. A participação em sessões de FpC contribui para melhorar a autorregulação, a participação social e a qualidade das interações interpessoais e ajuda a ampliar o vocabulário emocional dos participantes, permitindo-lhes identificar e expressar sentimentos de forma mais elaborada e menos reativa.
Um quarto contributo refere-se à restauração do vínculo social e da confiança no outro. O trauma interpessoal tende a comprometer a crença em que os outros possam constituir fontes de segurança e de apoio. A dinâmica horizontal da comunidade de investigação promove o respeito mútuo, a cooperação e a escuta ativa, criando condições para o desenvolvimento de relações mais seguras. Ao descobrirem que os seus colegas partilham dúvidas, medos e inquietações semelhantes, os jovens experimentam um sentimento de pertença e reduzem sentimentos de isolamento. Esta construção conjunta de significado favorece o fortalecimento dos laços sociais e contribui para a reconstrução da confiança interpessoal.
Por fim, a FpC constitui um importante estímulo à resiliência e à flexibilidade cognitiva. Experiências prolongadas de adversidade podem consolidar modos de pensamento pouco flexíveis e dualistas, levando os jovens a interpretar o mundo em termos absolutos. A metodologia proposta por Lipman procura desenvolver simultaneamente o pensamento crítico, criativo e cuidadoso (caring thinking), incentivando a consideração de múltiplas perspetivas e possibilidades. A compreensão de que uma mesma questão pode admitir várias respostas plausíveis promove a tolerância à incerteza e a capacidade de lidar com mudanças, perdas e frustrações. Estas competências revelam-se particularmente importantes em contextos de acolhimento residencial, frequentemente marcados por transições e instabilidade, pelo que a flexibilidade cognitiva, o sentido de pertença e a participação ativa se revelam como fatores protetores fundamentais para jovens institucionalizados.
Deste modo, a FpC apresenta, de facto, um elevado potencial como ferramenta educativa junto de jovens institucionalizados com trajetórias de trauma e vulnerabilidade, ao promover o fortalecimento da autonomia e da participação ativa, a abordagem simbólica das experiências difíceis, a regulação emocional, a confiança interpessoal e a flexibilidade cognitiva, contribuindo para o desenvolvimento da resiliência e para a construção de percursos de vida mais positivos.
Eugénio Oliveira, Presidente da Direção do APEFP;
Margarida Jácome, licenciada em Filosofia pela UCP Braga e Pós-graduação em Filosofia para crianças e jovens pela UCP Lisboa.
Como citar este texto:
Oliveira, E.; Jácome, M. A filosofia para crianças como ferramenta de Mediação do Trauma no contexto Institucional. InfoTRAUMA, 42.