Skip to content

O silêncio das profissões do cuidado e a desumanização dos corpos periféricos

Publicado em: O silêncio das profissões do cuidado e a desumanização dos corpos periféricos

Fotografia|Pedro DC Oliveira

A violência alegadamente cometida numa esquadra, contra pessoas em situação de sem-abrigo,
revela um traço profundo da nossa organização social: o silêncio das profissões
do cuidado. Profissionais cuja vocação ética é proteger, reparar e escutar — assistentes
sociais, psicólogos, sociólogos, advogados, entre outros — quase não se pronunciaram.
Nem sequer os comentadores. E este silêncio não é neutro. Ele expõe a forma como
determinados corpos são desumanizados e, por isso mesmo, excluídos da esfera de
atenção moral.

Estes são os corpos periféricos de que falam Fernandes e Barbosa (2015): “aqueles dos
quais emanam signos desvalorizados pelos padrões constituintes da centralidade
corpórea”. Não são corpos abstratos; são corpos concretos, vulneráveis, socialmente
marcados por estigma, pobreza e abandono.

Ao lermos Eribon, compreendemos que este silêncio é também produto de um regime de
mudez política imposto aos marginalizados. Para Eribon (2018), os grupos socialmente
desvalorizados falam, mas não são escutados. A ausência de porta-voz transforma a
violência sofrida numa experiência sem eco público. No caso das pessoas em situação de
sem-abrigo, a violência não convoca indignação imediata porque a sua dor não é
reconhecida como politicamente relevante. E quando os profissionais do cuidado não se
posicionam, reforçam involuntariamente esta invisibilidade: não se cala apenas o
acontecimento, cala-se também o sujeito.

Depois desta notícia, outras violências institucionais se seguiram — contra imigrantes e
contra caloiros num quartel — todas marcadas pelos mesmos corpos desautorizados sob
o jugo da violência. E nem todos merecem igual reflexão ou comentário: há uma
hierarquia silenciosa de corpos periféricos.

A análise de Édouard Louis (2016) ajuda-nos a compreender o que se segue ao ato
violento: o trauma institucional. Louis mostra como a violência continua nos
procedimentos, nos silêncios, nas omissões e nas interpretações que diminuem o relato
da vítima. A dor torna-se um objeto burocrático. Quando a vítima é uma pessoa em
situação de sem-abrigo, esta segunda violência é quase inevitável: chega já marcada pelo descrédito, já chega como corpo periférico. A ausência de reação das profissões do
cuidado contribui para manter este trauma, porque falha o reconhecimento mais elementar
da dignidade ferida.

A perspetiva de Mbembe (2003) amplia esta reflexão. A vulnerabilidade não é distribuída
de forma igual: há corpos cuja exposição ao sofrimento é tolerada e naturalizada. Este
enquadramento explica, em parte, por que a violência contra pessoas sem-abrigo não
provoca uma resposta proporcional das instituições responsáveis pelo cuidado. Estes
corpos, já afastados da centralidade, tornam-se facilmente desumanizáveis. Quando a
violência incide sobre eles, não se produz escândalo; produz-se silêncio.

É gritante a desproporcionalidade de poder: de um lado, pessoas em extrema
vulnerabilidade, marcadas pela carência, exclusão e sobrevivência; do outro, uma
autoridade investida de força física, legitimidade institucional e domínio simbólico. Esta
assimetria gera condições para que a violência se torne possível: quando um corpo deixa
de ser reconhecido como portador de dignidade, o maltrato instala-se como se fosse
aceitável.

Daqui emerge um paradoxo difícil de aceitar. Exigimos aos jovens que não filmem
agressões, que não reproduzam crimes sexuais, que não transformem a dor alheia em
entretenimento. Ensinamos que isso é imoral, que desumaniza, que perpetua a violência.
No entanto, o que vemos aqui é precisamente a mesma lógica — exposição, humilhação
e controlo sobre o corpo do outro — exercida por quem detém poder e legitimidade
institucional. O que é pedido como lição ética aos mais novos deveria ser exigido, com
maior rigor, às instituições que têm a responsabilidade de proteger. Quando estas falham,
a pedagogia moral da sociedade fragiliza-se: perde-se a coerência entre o que se prega e
o que se pratica, e a confiança na justiça fica profundamente abalada.

Assim, o problema não é apenas a violência inicial — é aquilo que ela revela sobre quem
merece cuidado. O silêncio das profissões do cuidado não é uma falha individual; é um
sintoma estrutural. Significa que estes corpos, já na margem, não são plenamente
reconhecidos como parte do “nós”. Enquanto o sofrimento destas pessoas não convocar
uma resposta ética imediata, continuaremos a assistir à reprodução da desumanização: a
violência cometida e a violência calada.

Marta Borges — Assistente Social

Referências

Eribon, D. (2018). Regresso a Reims. Orfeu Negro.

Fernandes, L., & Barbosa, R. (2015). A construção social dos corpos periféricos.
Universidade do Porto.

Louis, É. (2016). História da violência. Dom Quixote.

Mbembe, A. (2003). Necropolitics. Public Culture, 15(1), 11–40.

Como citar este texto:

Borges, M. O silêncio das profissões do cuidado e a desumanização dos corpos periféricos. InfoTRAUMA, 39.

Fonte: O silêncio das profissões do cuidado e a desumanização dos corpos periféricos
Feed: Centro de Estudos Sociais – Destaques
Url: ces.uc.pt
Back To Top