O suporte de IA da Meta deixa jornalistas que foram removidos da plataforma falando com uma máquina — e com mais ninguém.
Publicado em: O suporte de IA da Meta deixa jornalistas que foram removidos da plataforma falando com uma máquina — e com mais ninguém.
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Por
Leonardo Coelho -
7 julho, 2026
Summary
Repórteres brasileiros e veículos de notícias locais afirmam que contas suspensas os deixam presos em ciclos intermináveis de chatbots, sem nenhuma forma de entrar em contato com uma pessoa que possa ajudá-los.
Três anúncios de emprego foram suficientes para apagar anos de construção de audiência em um pequeno jornal brasileiro.
No fim de abril, um sistema de inteligência artificial da Meta — empresa controladora das plataformas de mídia social Facebook, Instagram e WhatsApp — sinalizou como fraudulentas as publicações na página do Facebook da Gazeta de Vargem Grande, suspendendo uma conta que os editores do jornal haviam criado em 2011 e feito crescer até alcançar 45 mil seguidores.
A direção do jornal afirmou que as vagas haviam sido verificadas com empresas parceiras antes da publicação. Assim, depois de não conseguir contato com ninguém da Meta por meio do sistema de atendimento ao cliente da empresa — um processo que havia resolvido duas suspensões semelhantes no passado —, decidiu entrar na Justiça.
E, em 26 de maio, um juiz local determinou que a Meta restabelecesse a conta em até cinco dias, sob pena de multa diária de 500 reais. Mas, semanas depois, eles ainda não haviam conseguido falar com um ser humano na Meta, e a página continuava fora do ar.
“Nosso jornal presta um serviço público e cobre amplamente a cidade”, disse a editora Lígia Ligabue à LatAm Journalism Review (LJR). “Sem a página, nossa capacidade de alcançar as pessoas sobre questões que afetam a cidade e o debate público fica severamente limitada. Bots não entendem isso. Eles não entendem a vida.”
Tadeu Ligabue, fundador da Gazeta, e sua filha, Lígia Ligabue, atual editora.
O caso da Gazeta de Vargem Grande, um pequeno jornal que atende uma comunidade localizada a cerca de 150 km ao norte de São Paulo, faz parte de um padrão mais amplo no Brasil. Organizações de notícias afirmam que a Meta está suspendendo suas contas por supostas violações de suas regras, e muitas encontram um impasse ao tentar resolver a situação por meio de sistemas automatizados de atendimento ao cliente. Diversos jornalistas e redações relataram não conseguir falar com um representante humano após essas suspensões de serviço, ficando com poucas alternativas — mesmo depois da intervenção da Justiça.
A organização sem fins lucrativos CTRL+Z, que atua para responsabilizar empresas de tecnologia por danos causados aos consumidores, mapeou 154 reclamações de veículos, páginas ou perfis jornalísticos e jornalistas desde 2025 relacionadas à suspensão ou bloqueio de contas por supostas violações dos termos de serviço, de acordo com uma contagem preliminar que a CTRL+Z está realizando para um relatório que será publicado em breve. Cinquenta e sete delas foram registradas somente em 2026.
Às vezes, a Meta nunca restaura as contas, alegando dificuldades técnicas. E frequentemente só cumpre decisões judiciais quando instâncias superiores se manifestam — e apenas quando as multas ultrapassam o custo de ignorar a ordem judicial, segundo Luã Cruz, diretor de contencioso da CTRL+Z.
“Essa é a estratégia jurídica da Meta nos tribunais: o escritório de advocacia da empresa utiliza os mesmos argumentos em diferentes casos, não restabelece as contas nem mesmo após decisões liminares ou sentenças definitivas e continua adiando o cumprimento das decisões”, disse Cruz à LJR.
O problema não se limita aos veículos de imprensa locais. Jornalistas independentes também enfrentaram situações semelhantes.
Emília Bizzotto, uma das mais respeitadas jornalistas negras independentes do Brasil, teve sua conta no Instagram suspensa duas vezes desde dezembro, depois que seu perfil foi invadido por hackers e supostamente utilizado para distribuir conteúdo ilegal.
“Primeiro eles punem você, e depois você precisa lutar para fazer valer seus direitos e buscar reparação pelos prejuízos. Mas isso nunca acontece porque todo o atendimento ao cliente é feito por IA, e as pessoas não conseguem falar com um representante humano para explicar o que aconteceu”, disse ela à LJR. Bizzotto também documentou seu caso em uma conta temporária no Instagram.
Na manhã de 6 de julho, sua conta no Instagram, que tinha pouco mais de 8 mil seguidores, foi restaurada após uma longa batalha judicial e questionamentos feitos pela LJR.
Para Bizzotto, porém, os danos foram muito além das perdas financeiras. Como figura pública que trabalha na televisão e colabora com marcas e empresas, ela afirmou que o prejuízo à sua reputação é impossível de quantificar.
“O Instagram é a principal vitrine onde compartilho o que estou fazendo no meu trabalho do dia a dia, seja mediando um painel sobre educação em um evento, por exemplo”, disse Bizzotto. “Tive que recorrer a uma conta temporária com 300 seguidores, que nem de longe tem o mesmo alcance ou engajamento da minha conta anterior.”
A CTRL+Z documentou 42 reclamações envolvendo decisões das plataformas que foram revertidas em recurso, incluindo 13 somente neste ano. A organização também registrou quatro reclamações relacionadas a bloqueios indevidos de contas ou outras violações por parte das plataformas, duas delas neste ano.
Quando procurada por e-mail para comentar semana passada, a Meta informou à LJR que não comenta processos em andamento.
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