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Onças Pintadas | HH Magazine

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Publicado em: Onças Pintadas | HH Magazine

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Pra Marcella Marques

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A primeira carta de Amor que eu escrevi na vida foi pra uma onça pintada. Assim como agora escrevo pra falar com elas. Elas – que foram as minhas ouvintes mais íntimas. Eu sempre vou amar as onças pintadas[1].

 

AS FELINAS vivem nuas e sem-vergonha. Quando eu era uma criança-menina, estava bastante claro pra mim que a vida não valeria a pena se eu não conhecesse uma onça pintada. O luto e a tristeza (por nunca ter dado de cara com uma delas ao ar livre) me pesavam demais. Mas sei que nós nunca podemos voltar no tempo… Eu acordei do meu transe infantil e chorei horas quando descobri, mais uma vez, que esse era o mundo no qual estava vivendo, o mundo do fogo que come o Pantanal em carne-viva, um mundo que não está aberto pra que as mulheres e as onças pintadas conheçam umas às outras. Entretanto, eu só consigo falar diretamente com o meu coração quando me transformo nessa fera (cada vez mais ferida, claro)… Essa é toda a graça da minha bestialidade: o toque do Amor na minha pele de gente ou bicho em extinção, tanto faz…

Toda vez que minha alma se encontra com a de uma onça pintada, a possibilidade de que eu também viva nua e sem-vergonha, como uma promessa que a mata guarda, me enche de esperança. De todo modo, tem se tornado cada vez mais difícil continuar a acreditar nessa promessa do Amor quando vejo, em todos os lugares pros quais volto o meu olhar, como o encanto pelo poder da destruição parece ter suplantado as forças de criação. Eu sinto como se aquele homem que ateou fogo na floresta se sentisse ameaçado pela constatação a qual uma onça pintada nos obriga – uma constatação tão intensa de que liberdade ainda é pouco – que ela não poderia jamais ser falada, mas apenas rugida do mais profundo coração do verde.

Todos os dias, quando coloco a água em um prato pro meu gato, eu me lembro de que ele na verdade é filho daquela onça pintada Juma Marruá da extinta TV Manchete (querem re-filmar a novela, acabei de descobrir, é claro que vai ficar uma merda) – uma bicha que eu vejo nele, sem medo do momento em que poderei realmente encontrá-la de frente, quando ele se inclina pra tocar a água fresca com a língua. Até mesmo um gato pode assustar muito algumas pessoas porque não existem muitas aparições públicas de bestas naturais ultimamente… A onça pintada, o que é isso – só quem sabe é aquela moça bonita que um dia eu vi arrancar a roupa e sair correndo (feito doida, a bandida) na Lapa cheia em dia de sábado. A verdade é que a nossa cultura é muito cínica sobre as onças pintadas… Nos dias de hoje, o cinismo é a grande máscara que encobre os corações traídos e desapontados dos que não sabem ser bichos, amar os bichos ou soltar os bichos.

As palavras que as onças pintadas não dizem ecoam tudo o que eu penso sobre o Amor. Quando eu falo que sou uma onça pintada para os meus amigos percebo que muitos ficam nervosos ou amedrontados, especialmente quando eu falo que sou uma bicha carente de um cuidado… Eu entendo que a maioria deles se sente apenas muito apavorada sobre o que pode ser revelado por baixo de uma pele de onça pintada. Alguns me mandam procurar um terapeuta e, para sua grande surpresa, descobrem que as felinas têm pouca – ou quase nenhuma – resistência ao divã. Foi o desapontamento e um sentimento penetrante de coração partido que levaram as onças pintadas a mergulharem em uma investigação ainda mais profunda do que já vinham fazendo sobre si mesmas…

De fato, vamos torcer pra que elas descubram quem são antes de morrerem – todas – carbonizadas, acuadas ou sufocadas. Eu torço por todas nós, minhas amigas que tem quatro patas e, sobretudo, garras.

 

Estamos juntas!

 

 

 


NOTAS

[1] Esse texto é uma reescrita (e, portanto, uma brincadeira) que uma onça pintada fez a partir de algumas passagens do All about love – new visions, da bell hooks depois de beber uma caixinha de cerveja e sentar pra pensar na vida.

 

 

 


Créditos na imagem: Foto reprodução.

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Fernanda Miguens

Fernanda Miguens é tradutora. Doutora em Filosofia pela UFRJ (2018) com tese sobre a tradução dos dogmas judaicos do leste-europeu para a realidade carioca, no século XIX, pelas mulheres judias apelidadas de polacas. Mestra em Filosofia pela UFRJ (2014), com dissertação sobre algumas das traduções/versões do que chamamos de “filosofia oriental” para o Ocidente. A tradução de Corpos em aliança e a política das ruas – notas sobre uma teoria performativa da assembleia, da filósofa Judith Butler, para a Editora Record e A metade que nunca foi contada – a escravidão e a construção do capitalismo norte-americano, do historiador Edward E. Baptist, para a editora Paz & Terra, são os seus trabalhos mais recentes.

Fonte: Onças Pintadas | HH Magazine
Feed: HH Magazine
Url: hhmagazine.com.br
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