Preservação da memória da BAD
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O projeto Entrevistas Profissionais, realizado em 2022 e 2023, pretendeu preservar a memória da profissão e da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação, através de entrevistas realizadas a nove associados honorários da BAD, em formato vídeo, publicadas no canal Youtube da associação.
Recentemente, foi publicado um artigo nas Páginas a&b que contextualiza esta atividade e apresenta transcrições de parte das entrevistas realizadas. Adotando uma abordagem qualitativa, o processo assentou na transcrição assistida por software, seguida de uma revisão interpretativa, permitindo explorar os percursos profissionais, a formação, o desenvolvimento de competências e os contributos dos entrevistados para a profissão e para a Associação. No artigo são evidenciados excertos das entrevistas organizados em três eixos principais: a formação e a consolidação de competências; a valorização dos percursos e da identidade profissional; e a preservação da memória institucional da Associação. Estes testemunhos sublinham o impacto do associativismo na dignificação da carreira e na construção de uma identidade profissional coletiva.
Aqui destacam-se só alguns exemplos extraídos das entrevistas, enquadrados na categoria Preservação da memória institucional da Associação. Os excertos que se apresentam deixam perceber que a memória fundadora da BAD permanece bem viva nos profissionais que participaram ou testemunharam o seu nascimento, funcionando como uma narrativa fundadora da comunidade profissional:
“Em dezembro de 1972, realizou-se um encontro, na altura não se chamava congresso, de bibliotecários e arquivistas, em Coimbra. E foi aí que nasceu a BAD. Foi aí que se fez uma grande reunião, a Maria José Moura explicou o que estava em jogo e a oportunidade que nós tínhamos de agarrar nisto e as pessoas tiveram uma adesão enorme. Aliás, o encontro estava cheio de profissionais, toda a gente achava que aquele era o momento, inclusive até participei em reuniões em que se estava a preparar os estatutos. Nunca conheci de outra maneira a profissão que não fosse ligada à BAD. Também me liguei cedo e atendi sempre que se entravámos na profissão, devíamos fazer parte da Associação, porque era ali que nós nos podíamos encontrar, debater ideias, caminhar para a frente, enfim, era ali que era o nosso sítio, não era num cantinho isolado, sem conhecer mais ninguém. Tive essa sorte também de participar em muitas ações da BAD.” (entrevistado 8).
“Tive o enorme privilégio de ser espectadora empenhada, tal como os colegas da minha geração, do nascimento da BAD em dezembro de 1973. [Realizou-se] o 4º Encontro aqui [Coimbra] e no final foi criada a BAD, que andava a ser congeminada e preparada há muito tempo. Tomaram posse o corpo de gestão, etc. Eu era ainda aluna do curso de bibliotecários, por isso mesmo tivemos de esperar […], para ter o diploma para sermos aceites como associados. Mas acompanhámos o processo desde o primeiro momento, foi um privilégio enorme ter assistido a isso. A BAD nasceu ainda no período da ditadura, mas representava um farol de esperança para a profissão, para todos nós, apesar de haver constrangimentos e até eventuais vigilâncias, o direito de associação não era bem visto, tomar essa decisão de criar uma associação profissional era de uma grande ousadia. Felizmente, cerca de quatro meses e meio depois, dava-se a Revolução do 25 de Abril e aí as esperanças, se nós já as tínhamos, até aí eram os Cadernos que desempenhavam esse papel, com a associação profissional, as nossas esperanças redobraram. Foi uma coisa perfeitamente espantosa.” (entrevistado 4).
“Estava no grupo que assinou o pedido para criação e legalização da BAD. Estamos a falar de [19]72, naquela altura não se podia formar uma associação só porque as pessoas assim o queriam. Era preciso ter a autorização da PIDE. Pediram-me se estava disponível para assinar o papel, e assinei, fui o número 23, e com o número 23 assim fiquei associada da BAD. Portanto, não aderi mais tarde à BAD […]. Entrava-se na função pública e tinha que se fazer uma declaração anticomunista. Depois para ter uma associação tinha que se submeter à PIDE. Não se podia reunir quando se queria […]. Era uma luta técnica e era uma luta política de certa maneira, porque as pessoas tinham que ter a coragem de dizer “não, isto está errado e a queremos modificar o sistema”. (entrevistado 1)
“Regressei a Portugal no dia 25 de abril de 1974. Curiosamente, regressei nesse dia e fui logo para Coimbra para terminar o meu estágio, o que aconteceu em outubro de 1974. E nessa altura, já sendo bibliotecário, pelo menos já tinha o diploma, inscrevi-me logo como associado da BAD. Comecei a beneficiar da informação que a BAD fazia circular, das ações de formação que realizava, dos contactos com outros colegas. Desde o princípio, ela foi imprescindível na minha formação profissional e no estabelecimento de laços de amizade, de grande cumplicidade com inúmeros colegas. Marcou-me desde o princípio. Sem a BAD a minha vida profissional teria sido diferente. Por isso participei sempre em todas as suas iniciativas.” (entrevistado 5).
A BAD assumiu um papel de destaque na formação dos profissionais, promovendo ações que favoreceram a qualificação e o desenvolvimento contínuo da comunidade, quer na definição de percursos de qualificação, quer na oferta de formação contínua, ciclos de seminários e cursos técnicos que acompanham a evolução das bibliotecas, arquivos e serviços de informação em Portugal. Os entrevistados descrevem a Associação como uma importante entidade formadora certificada e de referenciação para bibliotecários, arquivistas e documentalistas.
“A BAD teve um papel primordial na formação dos profissionais, sobretudo de técnicos, no estabelecimento, valorização e dignificação das carreiras, quer de técnicos superiores quer de técnicos auxiliares e na possibilidade de se deslocarem professores estrangeiros, de criar ações de formação, etc.” (entrevistado 4).
“A BAD lançou os primeiros cursos de técnicos auxiliares, quer nos Açores quer em Lisboa quer em Coimbra, dei o meu pequeno contributo, ao ser responsável por alguns módulos. E como estávamos muito carentes […], os cursos para técnicos auxiliares caíram como uma bênção nas bibliotecas, assim como os do Fundo Social Europeu, foram centenas de cursos que se fizeram. Isso foi muito importante.” (entrevistado 4).
“Foi muito mais importante o que recebi da BAD do que o que dei à BAD. Vou explicar toda a parte de formação dos arquivistas que a Maria José Moura (que não era arquivista, mas bibliotecária), tinha a perfeita noção da importância de formar os arquivistas novos, que estavam a iniciar o trabalho, foi importante toda aquela geração de arquivistas que cá vieram.” (entrevistado 3).
“A BAD foi fundamental na minha formação, foi um vetor da maior importância.” (entrevistado 9).
A memória projetada nestes excertos é, ao mesmo tempo, histórica e afetiva, assenta em datas, assembleias, eleições, mas também em narrativas sobre a luta pela dignificação da classe e pela construção de um espírito associativo.
A valorização da profissão e a preservação da memória da Associação constituem uma fonte de inspiração para as novas gerações de profissionais. Nestes excertos, encontram-se afirmações e recordações que permitem identificar padrões e antecipar desafios, enriquecendo o repertório coletivo da Associação e da profissão. Esses testemunhos evocam momentos marcantes da sua história e oferecem contributos gratificantes para as gerações futuras.
Luísa Alvim
Vogal da Profissão do Conselho Nacional BAD 2021/2023, 2004/2026.
Alvim, L. (2026). Entrevistas com profissionais de informação: memória associativa e percursos profissionais. Páginas a&b: Arquivos E Bibliotecas, 43–59. Obtido de https://ojs.letras.up.pt/index.php/paginasaeb/article/view/16264; http://hdl.handle.net/10174/42672
Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação. Comissão Técnica da Profissão. (2025). Entrevistas Profissionais. YouTube, 2025.