Processos judiciais recentes nos EUA dão novo fôlego às reportagens sobre a “narcopolítica” no México
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26 junho, 2026
Summary
Repórteres mexicanos que investigam supostos vínculos de políticos com o narcotráfico explicam como verificar vazamentos, evitar manipulações e cobrir redes criminosas com segurança.
Em 2025 foi publicado o livro “A 4ª transformação do crime organizado”, uma investigação jornalística que expôs, por meio de processos, áudios e testemunhos, a suposta conivência de políticos mexicanos com cartéis do narcotráfico, entre eles o governador do estado de Sinaloa, Rubén Rocha Moya.
A reação das autoridades foi de negação e desqualificação da investigação, de autoria dos jornalistas Ricardo Ravelo e José Luis Montenegro.
“Foi rotulado justamente como falso, como golpista”, disse Montenegro à LatAm Journalism Review (LJR). “Mas isso também faz parte dessa narrativa do governo federal de querer sempre ter razão e desqualificar o oponente sem mostrar as provas”.
O jornalista José Luis Montenegro afirmou que o livro do qual é coautor, sobre supostas ligações entre autoridades públicas e cartéis do narcotráfico, foi alvo de ataques e desqualificação. (Foto: José Luis Montenegro no X)
A Revista Espejo, um veículo local de Sinaloa, havia revelado há vários anos, em reportagens, irregularidades que apontavam para supostos vínculos do governo estadual com cartéis. A resposta das autoridades foi a mesma.
“Nunca nos deram atenção e, em vez disso, sofremos um ataque por parte do governo, que desconsiderava as investigações, que desconsiderava o que fazíamos, o que dizíamos”, disse à LJR o jornalista Marcos Vizcarra, subdiretor editorial do veículo e autor de algumas dessas reportagens.
Em abril deste ano, um tribunal dos Estados Unidos acusou o governador Rocha Moya e outros nove funcionários de Sinaloa por acusações relacionadas ao narcotráfico. Essas e outras acusações em tribunais norte-americanos contra políticos mexicanos nas últimas semanas causaram um cisma no governo da presidente Claudia Sheinbaum e apontam para ser a ponta do iceberg de uma complexa infiltração dos cartéis nas elites políticas.
“O fato de autoridades judiciais considerarem válidas suas investigações tacitamente te dá esse valor, essa certeza e credibilidade como autor, como jornalista, de que sua informação é confiável, que não foi uma invenção”, disse Montenegro.
O surgimento recente de processos judiciais contra políticos mexicanos colocou sob os holofotes investigações jornalísticas que, em seu momento, foram desconsideradas ou atacadas. Para jornalistas especializados em narcopolítica, este momento oferece a oportunidade de repensar estratégias para cobrir melhor esses fenômenos: desde o uso ético de vazamentos e a verificação de informações até o trabalho colaborativo e estratégias de segurança para evitar se tornarem porta-vozes involuntários de interesses políticos ou criminosos.
Embora nem as reportagens nem os processos judiciais determinem por si só culpa ou inocência dos envolvidos, o fato de investigações de autoridades estrangeiras coincidirem com fatos previamente documentados pelo jornalismo e de gerarem debate na sociedade é um grande incentivo, disse Montenegro.
“Isso mostra que justamente as investigações de longo prazo valem a pena”, disse. “Os jornalistas nos tornamos fiscalizadores do poder público (…). O governo tem sido fornecedor de muita matéria-prima para investigações de corrupção, impunidade e narcotráfico”.
Investigar sem cair no jogo
Parte das informações das recentes investigações jornalísticas sobre supostos vínculos de políticos com cartéis vem de vazamentos de autoridades norte-americanas para meios de comunicação. Os jornalistas consultados concordam que essa não é uma prática incomum na cobertura da narcopolítica.
“Eu tive conversas, por exemplo, com diferentes autoridades de segurança dos Estados Unidos que operam no México, e elas te fornecem informações-chave referentes às investigações em andamento”, disse Montenegro. “Não fornecem detalhes tão específicos, mas dão pistas do que está por vir”.
Uma reportagem do Los Angeles Times publicada simultaneamente por veículos da aliança binacional Puente News Collaborative revelou, no fim de abril, que estava sendo preparada uma série de acusações em tribunais dos Estados Unidos contra políticos mexicanos, dias antes de os processos contra o governador Rocha Moya serem oficialmente divulgados. Os mesmos veículos publicaram semanas depois outra reportagem sobre supostas investigações norte-americanas contra outros dois governadores mexicanos. Em ambos os casos, as reportagens foram baseadas em fontes anônimas próximas aos casos judiciais.
Os vazamentos são muito úteis e muitas vezes inevitáveis na cobertura da narcopolítica, que acontece em sua maior parte em círculos fechados e sob condições de confidencialidade, disse Óscar Balderas, jornalista especializado em crime organizado.
O jornalista Marcos Vizcarra incentivou colegas a consultarem jornalistas locais para compreender melhor o contexto dos casos de narcopolítica. (Foto: Marcos Vizcarra no X)
No entanto, esse tipo de informação não deve ser o único recurso de uma reportagem, acrescentou.
“As investigações sobre narcopolíticos, por sua natureza, são documentos secretos sem os quais não poderíamos conhecer a história”, disse Balderas à LJR. “Os vazamentos muitas vezes são um grande ponto de partida para começar a contar uma grande história”.
Vizcarra disse que, para proteger reportagens que usam vazamentos como fonte, a verificação e o trabalho de campo são fundamentais. Caso contrário, acrescentou, corre-se o risco de se tornar mensageiro de alguma das partes.
“Um vazamento é sempre algo que alguém quer que venha a público e ponto final. Não é propriamente uma investigação”, disse Vizcarra. “Contar apenas vazamentos é nos prestar a ser porta-vozes de alguém e ao mesmo tempo faltar com respeito aos nossos leitores”.
Vizcarra disse que, para verificar vazamentos e rumores sobre o governador de Sinaloa, recorreu a fontes que vão desde registros públicos até fontes em consulados e empresas. Como em outros temas relacionados à corrupção, seguir o dinheiro costuma ajudar muito, acrescentou.
“Há um monte de fontes locais, desde empresários e políticos ressentidos que já vinham alertando sobre esse tipo de coisa, até registros públicos. Há coisas que você pode verificar de qualquer parte do mundo pelo Registro Público do Comércio”, disse Vizcarra. “Mas também é ir aos lugares, encontrar muitas pessoas para que me contem o que está acontecendo”.
Vizcarra incentivou veículos nacionais e internacionais a consultar jornalistas locais, que são quem pode fornecer o contexto necessário para entender a narcopolítica.
Quando se usam vazamentos, também é fundamental ser transparente com o público e explicar como essa informação foi obtida e se ela pôde ser verificada de forma independente, disse Balderas. Isso inclui deixar claro ao leitor o processo de verificação do veículo e até indicar quando não foi possível realizar essa verificação.
“Deve-se tornar transparente para o leitor como foi o processo de pensar: ‘este vazamento tem valor de interesse público’ ou se simplesmente o colocamos em destaque porque consideramos importante que o leitor avalie”, disse Balderas. “Acho que esse aviso é muito importante neste momento”.
Montenegro acrescentou que outra forma de proteger reportagens é a publicação simultânea em pelo menos três veículos, como fizeram as redações da Puente News Collaborative nos casos recentes.
“Quanto mais repercussão houver entre a categoria jornalística, acho que fica mais difícil para o governo desmentir uma reportagem ou uma informação dessa magnitude”, disse Montenegro. “Apoiar-se e se proteger em várias frentes te dá mais credibilidade e aplica um duro golpe em favor da liberdade de expressão”.
Boas práticas para cobrir narcopolítica
Para investigar a narcopolítica não basta reportar casos específicos. Também é necessário entender o funcionamento do sistema criminoso como um todo, disse Balderas. E a aproximação com a academia é uma boa forma de fazer isso, acrescentou.
“Não se trata apenas de informar que apareceu uma grande quantidade de propriedades para um prefeito e que ele supostamente está vinculado ao crime organizado, mas de entender como o crime organizado avança institucionalmente em determinada região e quais são os mecanismos para compreender melhor esses avanços”, disse. “Acho que os marcos teóricos ainda são algo que falta muito para nós, jornalistas”.
O jornalista Óscar Balderas ressaltou a importância da transparência ao utilizar vazamentos em reportagens. (Foto: Óscar Balderas no X)
O cuidado com a segurança também é crucial nessas coberturas, concordaram os jornalistas. Balderas disse que o trabalho de campo inevitavelmente expõe o repórter a ser alvo de grupos criminosos, por isso os cuidados físicos devem incluir conhecimentos básicos de mecânica e primeiros socorros.
Também são necessários cuidados cibernéticos, sobretudo o uso de ferramentas que garantam anonimato, como VPNs ou sistemas de comunicação criptografados, disse Balderas.
O jornalista acrescentou que os cuidados também devem contemplar a saúde mental para lidar com as emoções associadas aos riscos de cobrir a narcopolítica. Isso inclui, disse ele, desde uma rede de apoio fora do jornalismo até ajuda terapêutica.
“Se alguém vai entrar nesse caminho da narcopolítica ou da investigação do crime organizado, que cuide preventivamente da saúde mental, que não espere ter episódios de ansiedade, de depressão, depois que uma ameaça chegar, porque ela vai chegar”, disse Balderas. “Este é um caminho complicado, arriscado, muito delicado e acredito que agir preventivamente na questão da saúde mental permitirá fazer o trabalho da melhor maneira possível.”
Este artigo foi traduzido com a ajuda de IA e revisado por Leonardo Coelho.
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