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Quando um experimento de publicar apenas boas notícias se deparou com uma tragédia que não podia ser ignorada

Publicado em: Quando um experimento de publicar apenas boas notícias se deparou com uma tragédia que não podia ser ignorada

Summary

O IG, um importante site de notícias brasileiro, se propôs a publicar apenas boas notícias por 24 horas. Então o dia 11 de setembro de 2001 aconteceu.

Há vinte e cinco anos, Leão Serva estava indo para seu escritório em São Paulo em uma bela manhã de inverno, pronto para o lançamento de um novo experimento. Como jovem diretor de notícias do iG, na época um dos sites de notícias mais visitados do Brasil, ele estava na vanguarda do setor de notícias online emergente do país. Naquele dia, ele e seus colegas estavam tentando algo diferente: publicar apenas notícias positivas.

Simplesmente chamado de “Dia das Boas Notícias”, a ideia foi concebida pelos executivos do iG como uma estratégia de marketing em meio a uma enxurrada de notícias negativas no país, especialmente uma desaceleração econômica, o aumento dos preços ao consumidor e uma onda de sequestros.

Os repórteres estavam preparando matérias há um mês. Uma delas falava sobre um morador local que projetava filmes do telhado de sua casa, criando um cinema de bairro. Outra se concentrava em uma clínica de reabilitação para adolescentes. 

O dia era 11 de setembro de 2001. Os editores escolheram arbitrariamente a data para seu novo experimento, mas, sem que Serva soubesse, a mais de 7,500 quilômetros de São Paulo, os maiores ataques terroristas da história dos Estados Unidos estavam ocorrendo.

O telefone de Serva tocou enquanto ele ainda estava no trânsito. Da redação do iG, a editora-assistente Carina Martins disse a ele que um avião havia se chocado contra um prédio em Nova York.

Serva inicialmente resistiu a mudar os planos da sua redação. 

“Carina, hoje é o Dia das Boas Notícias, você sabe disso”, respondeu Serva. “Você não vai me ligar com todas as notícias ruins, vai?” Publique as más notícias no site de más notícias. Hoje é o Dia das Boas Notícias.”

Menos de 20 minutos depois, Martins ligou de volta com notícias ainda mais perturbadoras: outro avião havia se chocado contra a outra torre do World Trade Center.

Serva se lembra de Martins dizendo a ele: “Parece terrorismo. Vou colocar isso na manchete. Quando você chegar aqui, me demita.”

Serva relembrou como o dia se desenrolou em sua redação em seu livro recentemente lançado, “Como se proteger de uma granada”.Nele, ele faz um relato detalhado de como um experimento de promoção de boas notícias fracassou e se tornou uma das maiores lições da história recente do jornalismo brasileiro.

Captura de tela da página inicial do IG em 18 de outubro de 2001. Source

Serva chegou à redação do iG, elogiou Martins por seu discernimento jornalístico e, depois de discutir a situação com a equipe, decidiu abandonar o Dia das Boas Notícias. Ainda era de manhã. Uma mensagem pop-up na página inicial do iG dizia: “Tentamos ter um dia com apenas boas notícias. Mas não foi possível. A história acelerou e nos atropelou.”

O Dia das Boas Notícias durou menos de 12 horas.

“Desde a meia-noite da noite anterior, estávamos publicando boas notícias. Então, até por volta das 9h30 ou 10h, o site continha várias notícias boas”, disse Serva ao LatAm Journalism Review (LJR). “Então nós as suspendemos e nunca mais as publicamos. Elas simplesmente foram esquecidas no fundo de uma “gaveta digital” nos computadores do iG.”

Ideias inovadoras não eram novidade para o iG. A redação já havia realizado um dia temático chamado “No Gerunds Day”, quando a equipe editorial do veículo se desafiou a não publicar nenhuma matéria com verbos no gerúndio, que em portugês terminam em “-ando, -endo, -indo”. 

Capa do livro de Leão Serva “Como se proteger de uma granada”

Mas, desde o início da iniciativa do Dia das Boas Notícias, as opiniões na redação eram céticas. Darlan Alvarenga, então repórter do iG, foi direto.

Os ataques terroristas de 11 de setembro foram “a prova de que você não pode lutar contra os fatos e lutar contra o que é notícia”, disse Alvarenga à LJR.

Outros colegas disseram que outros eventos ocorridos em 10 de setembro — quando um prefeito de uma grande cidade do estado de São Paulo foi morto a tiros — já estavam mostrando que a ideia de dedicar um dia para cobrir exclusivamente notícias positivas provavelmente não daria certo.

“Provavelmente não teria funcionado independentemente do 11 de setembro”, 11″, disse Francisco Itacarambi, ex-repórter do iG, à LJR. “O dia a dia inevitavelmente inclui tragédias, decisões governamentais impopulares, violência e crises econômicas. O papel do jornalismo é contar essa realidade, não tentar filtrá-la por 24 horas.”

O Dia das Boas Notícias se tornou um episódio bem conhecido no jornalismo brasileiro. Foi tema de um episódio do popular podcast Rádio Novelo Apresenta e de inúmeras matérias em veículos como Folha de S.Paulo, Piauí e Nexo, além de vários blogs e até mesmo um curta-metragem documental.

O experimento gerou muitas discussões, incluindo a ideia de que as organizações de notícias precisam encontrar outras maneiras de cobrir e prestar atenção às notícias positivas.

Serva disse que aprendeu que as boas notícias raramente viajam tão rápido quanto as más notícias. Desenvolvimentos como o declínio da violência urbana muitas vezes passam despercebidos, enquanto atos individuais de violência chamam a atenção. O resultado, segundo ele, é uma visão distorcida da realidade que pode influenciar negativamente a opinião pública. Ele acredita que isso tenha contribuído para aumentar o apoio aos partidos de extrema direita em todo o mundo nos últimos anos.

Portanto, embora o Dia das Boas Notícias possa ter sido uma má ideia, Serva disse que o impulso por trás dele não foi. Os jornalistas devem encontrar maneiras de dar aos acontecimentos positivos a atenção que eles merecem, disse ele.

“Precisamos entender que boas notícias são notícias”, disse ele.

Fonte: Quando um experimento de publicar apenas boas notícias se deparou com uma tragédia que não podia ser ignorada
Feed: LatAm Journalism Review by the Knight Center
Url: latamjournalismreview.org
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