Quanto tempo o periódico exige de você?
Publicado em: Quanto tempo o periódico exige de você?
Por Elisabete Werlang, Eli Lopes da Silva e Nadi Helena Presser
Imagem: Renel Wackett via Unsplash.
Essa pergunta ecoou na seção de comunicação oral no último dia do ABEC Meeting 2025, realizado em João Pessoa (PB). Ao chamar a atenção para a temática e oferecer uma ferramenta de cálculo simples e baseada em evidências empíricas, apresentamos aos participantes do encontro o que chamamos de a fórmula do editor-chefe, que objetiva auxiliar editores a quantificarem as horas semanais necessárias para o atendimento da demanda de submissões dos periódicos que editam (2025).
A carga horária de trabalho dos professores contempla aulas, pesquisa e extensão, publicações, orientações, e ainda acumula outras demandas administrativas exigidas pelos programas de pós-graduação a que estão vinculados. E para exercer, geralmente de forma voluntária, o papel de Editor, é preciso ainda mais tempo de dedicação para esta atividade.
Os editores assumem tal desafio, muitas vezes sem contar com aporte institucional, financeiro, tecnológico ou mesmo de uma equipe editorial. O convite para assumir a editoria científica é aceito como mais uma das demandas inerentes à docência, conferindo reconhecimento e prestígio ao convidado. É uma nobre missão, aceita com entusiasmo e orgulho, apesar das atribulações do dia a dia da docência. Os seus pares o convidam na expectativa que a sua trajetória contribua com o periódico e traga avanços científicos e sociais na área da publicação.
Ainda que o editor seja inexperiente na função, algumas demandas do fluxo editorial já são conhecidas por ele, porque atuou como leitor, muitas vezes como avaliador ou membro de equipes editoriais de outros periódicos. A atuação em todos esses papéis, simultaneamente em fluxos editoriais de inúmeros periódicos, cria uma rede de cooperação voluntária de professores dos programas de pós-graduação que escrevem, avaliam e editam os resultados das pesquisas desenvolvidas em nosso país, contribuindo assim para o avanço da ciência e da sociedade.
Neste contexto e com o objetivo de contribuir com o reconhecimento da atividade de editoria científica no Brasil, desenvolvemos uma fórmula que quantifica em horas as demandas de trabalho do editor-chefe, da submissão à aprovação dos artigos.
Para compreensão da complexidade da atividade de editoria científica e do tempo despendido, Werlang (2019) obteve, de 95 editores associados à ABEC Brasil, a quantificação do tempo necessário para a realização das atividades do fluxo editorial, compreendidas entre a submissão e a decisão de publicação ou rejeição, após a avaliação por pares. Eles afirmaram levar, em média, 1h45min para a análise documental, o desk review e 1h30min para a avaliação por pares, o peer review, por artigo.
Com base nesses dados foi possível a criação da Fórmula do Editor-chefe, composta pelos metadados, cálculos e valores de referência apresentados a seguir.
- Metadado 1: Total de Artigos Submetidos (TAS).
- Metadado 2: Taxa de Rejeição (TR).
- Metadado 3: Tempo Médio do Editor para o Desk Review (TMEDR) = 1h45min por artigo.
- Metadado 4: Tempo Médio do Editor para o Peer Review (TMEPR) = 1h30min por artigo.
- Cálculo 1: Desk Review (DR). Tempo total despendido no processo de desk review.
- Cálculo 2: Peer Review (PR). Tempo total despendido no processo de peer review.
- Cálculo 3: horas por ano (DR + PR).
- Cálculo 4: horas semanais (horas por ano divididas por 40 semanas).
Considerando os valores de referência que propusemos para o TMEDR e TMEPR, o editor-chefe precisa tão somente do Total de Artigos Submetidos (TAS) e da Taxa de Rejeição (TR), ambos pelo período anual, para aplicação na Fórmula do Editor-chefe, que apresentamos a seguir, a qual traz como resultado a quantidade de horas por semana necessárias para atendimento às demandas do periódico.
Alguns exemplos de aplicação da fórmula:
- Periódico com 50 submissões por ano, com taxa de rejeição de 10%, ou seja, publica 45 artigos, exige do editor-chefe uma dedicação de 4 horas semanais.
- Periódico com 400 submissões por ano, com taxa de rejeição de 70%, ou seja, publica 120 artigos, exige do editor-chefe uma dedicação de 22 horas semanais.
- Periódico com 400 submissões por ano, com taxa de rejeição de 40%, ou seja, publica 240 artigos, exige do editor-chefe uma dedicação de 26,5 horas semanais.
Salientamos que o fluxo editorial científico não se encerra com a decisão editorial de publicação, pois envolve ainda a revisão de idiomas, a normalização, a diagramação, a publicação em PDF, HTML, XML (conforme o periódico), a atribuição de DOI, Digital Object Identifier, a indexação e a divulgação em redes sociais, demandas que espera-se que sejam realizadas pela equipe editorial que dá suporte ao editor, com destaque ao editor-executivo, geralmente alguém da biblioteconomia ou técnico administrativo da instituição editora, contratado para a função. Desta forma, a qualidade nos processos editoriais se manteria, mesmo quando ocorrer a troca do editor-chefe.
Conhecendo a fórmula, o editor-chefe pode obter o próprio cálculo para identificação da sua necessidade de dedicação semanal, conforme a quantidade de submissões que recebe e a taxa média de rejeição. Esses dados podem ser obtidos facilmente em sistemas informatizados de gestão editorial científica e demonstram que, independentemente do seu volume, a carga horária semanal dedicada à editoria científica é substancial e geralmente invisibilizada pelas instituições de ensino superior.
A ausência de previsão formal de horas de trabalho para essa função compromete não apenas a qualidade do processo editorial, como também o reconhecimento institucional dos docentes que assumem tamanha responsabilidade.
A fórmula se propõe a subsidiar a construção de políticas institucionais mais justas, que considerem a editoria científica como uma atividade estratégica e essencial para o desenvolvimento da ciência, visando contribuir para o reconhecimento da ocupação de editor científico, reconhecida na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) com o código 2616-25 — Editor de periódico Científico (Brasil, 2022).
Se olharmos para o cenário internacional, sabendo que o salário médio de um editor nos Estados Unidos é de US$ 33,31 por hora (2025), caso o editor seja remunerado especificamente para a função, o que é raro no Brasil e considerando os exemplos que apresentamos, o valor poderia variar de US$ 133,24 (4 horas semanais x US$ 33,31) a US$ 882,72 (26,5 horas semanais x US$ 33,31). Em Reais, esses dois extremos representam, por semana, R$ 708,84 e R$ 4.696,07; levando em conta a cotação de um dólar a R$ 5,32 em dezembro de 2025.
É necessário ampliar o conhecimento já produzido sobre a editoria científica ao quantificar uma atividade historicamente invisibilizada, oferecendo parâmetros objetivos para a avaliação institucional e o planejamento da carga horária docente.
Esperamos que o debate sobre o reconhecimento do editor-chefe se amplie e que a fórmula sirva como subsídio para que gestores acadêmicos, agências de fomento e órgãos reguladores da educação superior reconheçam o tempo, o esforço e a expertise envolvidos na função editorial, com possibilidade de criação de políticas públicas para o fortalecimento da atividade, retirando-a da invisibilidade, passos fundamentais para fortalecer a produção científica brasileira e para garantir a sua sustentabilidade.
Referências
BRASIL. Ministério do Trabalho. Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). 2022. [viewed 12 January 2026] Available from: http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/home.jsf
Scientific Journal Editor Salary. Ziprecruiter. 2025. [viewed 12 January 2026] Available from: https://www.ziprecruiter.com/Salaries/Scientific-Journal-Editor-Salary
WERLANG, E. Aporte institucional para editores de periódicos científicos: autoavaliar para (re)conhecer [online]. 2019. Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Ciências da Educação, Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, Florianópolis [viewed 12 January 2026]. Available from: https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/215461.
WERLANG, E., SILVA, E.L. and PRESSER, N. H.. A fórmula do editor-chefe: quanto tempo a revista exige de você? In: ABEC MEETING 2025, João Pessoa, 2025.
Sobre Elisabete Werlang
Doutora e Mestra em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Especialista com MBA em Gestão de Vendas pela ESPM/RS; Bacharel em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela PUC/RS. Atuou por 10 anos como Diretora de Arte em agências de propaganda, por 8 anos na área de marketing turístico e por 15 anos na área de marketing e gestão educacional. Pesquisadora autônoma, tem os periódicos científicos como objeto de estudos, desde 2011, quando recebeu o desafio de lançar uma revista científica, sendo Editora-executiva da Navus – Revista de Gestão e Tecnologia de 2011 a 2018. Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Editores Científicos – ABEC Brasil de 2014-2017 e 2018-2021. Integrou o Conselho Deliberativo da ABEC Brasil que criou o Programa ABEC Educação, desenvolvedora da Certificação ABEC Brasil de Editor Científico.
É membro do Conselho Editorial da Ágora – Arquivologia em Debate da UFSC e do Comitê de Política Editorial da Caminho Aberto do IFSC. Atua na BW Editora de Arte com a edição de conteúdo científico e empresarial.
Sobre Eli Lopes da Silva
Doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Bacharel em Ciências da Computação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Editores Científicos (ABEC Brasil) – mar.2020-mar.2024. Integrou o Conselho Deliberativo da ABEC Brasil que criou o Programa ABEC Educação, tendo desenvolvido a Certificação ABEC Brasil de Editor Científico. Editor da revista NAVUS (2012 a 2022).
Atualmente é pós-doutorando em Ciência da Informação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é professor e coordenador de publicações do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). É membro da Diretoria ABEC Brasil (mar. 2026 a mar. 2028) e avaliador ad hoc de Cursos Superiores pelo MEC/INEP.
Sobre Nadi Helena Presser
Graduada em Ciências Econômicas, mestra e doutora em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pós-doutora em Ciência da Informação pela Universidade Carlos III de Madri – Espanha. Coordenou o Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – PPGCI/UFPE no período de 2020 – 2021. Foi Editora Científica da Revista Navus – Gestão e Tecnologia de 2011-2022.
É professora associada da Universidade Federal de Pernambuco, com atuação na graduação e no programa de pós-graduação stricto sensu na área da Ciência da Informação e no Mestrado Profissional em Desenvolvimento e Gestão Pública. É Líder do grupo de pesquisa Prospecção e Práxis em Gestão da Informação. Atua nos seguintes temas: gestão da informação, desinformação e inovação inclusiva.
WERLANG, E. , et al. Quanto tempo o periódico exige de você? [online]. SciELO em Perspectiva, 2026 [viewed ]. Available from: https://blog.scielo.org/blog/2026/01/14/quanto-tempo-a-revista-exige-de-voce/
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