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Ressonâncias identitárias

Publicado em: Ressonâncias identitárias

Lembro-me que desde a mais tenra infância, algo estava fora do lugar. Quando minha mãe me vestia com aquele bendito vestido amarelo e isso era no pré-primário e eu me sentia desprotegida, exposta, em alguma medida não era eu, porém diferente era quando ela me deixava ir de bermuda, ninguém me detinha!

Bem aqui estamos falando de roupas, mas em se tratando de expressões de gêneros, sabemos bem que essa materialidade desde muito cedo, nos atravessa; daquele furo compulsório da orelha ao laço na cabeça, são direções e cercas de no fim com quem você terá ou manterá seus ecos, em que corpos-objetos suas ondas vão te cercear.

Recordo-me também, de um dia a porta da cozinha que perguntei: _ Mãe, não dá para mudar? Ela retorna mudar o que? _ Digo a ela, acho que nasci errado, eu deveria ser menino, minha mãe só disse que aquilo era pecado. Com minha pouca idade eu avalio hoje que eu pensava que as coisas que eu sentia por meninas eram erradas, tinha algo fora do lugar, mais uma vez.

Eis que vem a bendita fase da intensidade, adolescência, explosiva, provocativa, processos de mudanças físicas e emocionais, good times, filmes na tv, turma de amigues, mas nada diz e nada me fisga como se eu pudesse ser parte. No afã de pertencer, sufocamos, enterramos, jogamos no porão e caminhamos rumo ao comum, a beijar aquele garoto depois da aula. Chega ser até legal, você é parabenizada por estar cumprindo e inaugurando outra fase do padrão.

E nisso tudo, você quem é? Originalmente, você consegue se lembrar do que seu coração desejava ardentemente ressoar?

Novamente, olhando para todos os lados e não vendo nada, novamente algo esta fora do lugar, mas o que?

E numa tarde qualquer de quarta-feira, uma garota chamada Bianca, vinda de outra cidade, começa a provocar comentários que a principio eu não entendia…  “Bianca está passando o rodo em todas”, digo a vocês que Bianca, foi a garota que trouxe uma nova dimensão de significados. “Espera, quer dizer que uma garota pode beijar uma garota e não ser um E.T por isso???” Por onde essa possibilidade andava? Como ninguém nunca me disse que isso era possível?

E numa fração de segundos eu rememorei em quantas vezes, achando a mina que lia trechos bíblicos, linda e pensava: _ Deus, estou pecando, me perdoa!!! Como em quantas vezes a vida parecia cinza e uma coisa sem sentido, sem energia e sem lugar.

E de fato, algo estava fora do lugar, meu corpo todo, todo meu ser rejeitava o padrão, o imposto, o cultivado como natural e que de maneira alguma me fazia vibrar, ressoar.

Com o tempo, percebemos que a visibilidade lésbica, no beijo do metrô, da mão dada na praça, a praça da revolucionária da Liberdade em Belo Horizonte, é espelho de uma possibilidade de ser que para corações opressos até então era inimaginável.

Subverter com afetos, possibilita o ressoar, a ressonância que rompe os padrões, as regras, mas que enfim leva você, no seu processo identitário a singularidade do seu lugar. E tudo tem lugar quando há liberdade para ser o que se desejar ser.

Sejamos amores revolucionários, que rompem nossas amarras sociais e viabilizam alternativas e espaços de liberdade. Mulheres que amam outras mulheres e questionam o patriarcado apenas por serem.

 

 

 


Créditos na imagem: Paulo Pinto/Fotos Públicas

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Priscilla Messiane Santos

Priscilla Messiane Santos, Psicóloga, Lésbica, Pós Graduanda em Psicologia Social, Historiadora em Formação pela UEMG – Divinópolis, Coordenadora da Comissão Mulheres e Questões de Gênero do CRP-MG, Defensora dos Direitos Humanos.

Fonte: Ressonâncias identitárias
Feed: HH Magazine
Url: hhmagazine.com.br

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