Veículos de notícias brasileiros dizem que estão rejeitando anúncios de apostas esportivas para preservar a independência
Publicado em: Veículos de notícias brasileiros dizem que estão rejeitando anúncios de apostas esportivas para preservar a independência
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Por
Leonardo Coelho -
4 agosto, 2026
Summary
Mais de 60 organizações afirmam que não aceitarão publicidade de um setor que, segundo elas, está alimentando uma epidemia nacional e exige um escrutínio independente.
Mais de 60 organizações jornalísticas brasileiras concordaram conjuntamente em não aceitar dinheiro de publicidade da indústria de apostas esportivas online, que cresce rapidamente no país, afirmando que aceitá-lo comprometeria sua capacidade de fiscalizar um setor que alimenta uma epidemia nacional.
Os veículos assinaram e publicaram conjuntamente um editorial — uma colaboração sem precedentes na mídia jornalística brasileira, segundo as organizações que o assinaram — argumentando que os lucros crescentes da indústria de apostas esportivas dão às empresas uma influência desproporcional e podem comprometer a integridade do jornalismo. O editorial foi publicado inicialmente por 15 organizações de mídia; menos de uma semana depois, o número de signatários quadruplicou.
“Rejeitamos publicamente essa influência, especialmente sobre o jornalismo, que deve estar comprometido acima de tudo com o interesse público”, afirma o editorial. “Nosso papel é defender a sociedade investigando de forma independente e expondo a influência indevida da indústria, além de cobrar das autoridades a adoção de regras mais rígidas tanto para a publicidade de apostas quanto para a atuação das empresas de apostas.”
O volume mensal de transações da indústria de apostas esportivas subiu para uma estimativa de 30 bilhões de reais (US$ 6 bilhões), mais de sete vezes acima do registrado há três anos, segundo uma análise da Confederação Nacional do Comércio baseada em dados do Banco Central.
A Copa do Mundo registrou um aumento significativo nas apostas esportivas no Brasil, onde o Ministério da Justiça abriu uma investigação para apurar se uma emissora de TV estava exibindo anúncios de apostas durante as partidas enquanto ignorava suas consequências para a saúde mental e a saúde pública.
Os veículos que aderiram à iniciativa vão desde organizações jornalísticas nacionais e publicações locais até veículos de jornalismo investigativo e sites que cobrem startups, tecnologia e mercados financeiros. Muitos disseram que já recusaram propostas atraentes de publicidade.
Natalia Viana, diretora-executiva da organização sem fins lucrativos de jornalismo investigativo Agência Pública, disse que a resposta ao editorial tem sido surpreendente e que as organizações jornalísticas no Brasil estão priorizando a integridade das informações que divulgam ao público.
“Esta já é uma mobilização histórica”, afirmou ela em um comunicado.
Vinícius Martins, diretor multimídia da Alma Preta, que produz jornalismo sob uma perspectiva negra, disse que as apostas esportivas causaram danos extensos no Brasil, especialmente entre as famílias negras.
“Os dados mostram que a população negra e pobre do Brasil está entre as mais vulneráveis à publicidade agressiva das empresas de apostas. E isso tem impactos em múltiplos níveis”, disse Martins ao LJR.
O veículo publicou uma reportagem sobre o impacto das apostas na primeira infância, com foco em crianças negras.
“Muitas famílias já vivem em situação de baixa renda ou vulnerabilidade, e o dinheiro que deveria ser usado para manter condições básicas de vida frequentemente está sendo direcionado para essa infraestrutura econômica — ou seja, as casas de apostas no Brasil”, disse Martins, acrescentando que há dados mostrando o fluxo de dinheiro de pessoas que recebem benefícios sociais para aplicativos de apostas.
Pedro Dória, fundador do veículo digital de notícias Meio, afirmou no editorial que 44% dos brasileiros querem que as empresas de apostas sejam proibidas de operar, e quase 60% as responsabilizam pelo endividamento da população.
“Não é uma decisão fácil para nós. 2026 tem sido um ano muito difícil para a imprensa. O dinheiro está curto para todo mundo. Mas sentimos que não temos outra escolha”, disse Dória.
Muitos jornalistas dizem que assessorias de imprensa que representam empresas de apostas entram em contato com eles de forma agressiva. Rodrigo Borges, editor do MigraMundo, disse ao LJR que recebe esse tipo de proposta uma vez por semana.
“Acaba sendo meio irritante quando você precisa recusar o e-mail e depois eles continuam respondendo”, disse.
Os veículos que assinaram o editorial afirmam que buscam promover um debate público sobre as empresas de apostas. Eles esperam que o editorial alcance organizações jornalísticas que cobrem o setor de publicidade, bem como o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, órgão independente de regulamentação da publicidade, disse Viana.
É “um problema que precisa ser enfrentado de frente”, afirmou Viana.
O editorial pode ser assinado por qualquer organização jornalística que pretenda recusar publicidade de empresas de apostas.
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