Veículos de notícias estão perdendo confiança, mas as marcas continuam fortes
Publicado em: Veículos de notícias estão perdendo confiança, mas as marcas continuam fortes
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Por
Silvia Higuera -
17 junho, 2026
Summary
As medições globais de confiança nas notícias atingiram seus níveis mais baixos desde 2015, com países da América Latina registrando algumas das quedas mais acentuadas, de acordo com o mais recente Relatório de Notícias Digitais do Instituto Reuters.
A confiança nas notícias está em mínimos históricos em todo o mundo, e quatro países latino-americanos figuram entre os que registraram as quedas mais drásticas.
Desde que o Instituto Reuters começou a medir a confiança em 2015, ela nunca esteve tão baixa, marcando 37% em nível global. Segundo o Digital News Report 2026, publicado pela organização, a queda ocorre depois de três anos de estabilidade em 40% — a redução foi registrada em 29 dos 48 mercados medidos para o relatório do Instituto Reuters. E em 19 países caiu pelo menos 5 pontos percentuais.
O Peru é o país da América Latina que teve a maior redução na confiança, perdendo 8 pontos percentuais em comparação com o ano anterior. Além do Peru, que ocupa o quarto lugar mundial entre os países que mais perderam confiança nas notícias, Colômbia, Brasil e Argentina fazem parte do top 10 desses países.
No caso da Colômbia, perdeu 7 pontos percentuais em comparação com 2025 e é o país da região com o menor percentual de confiança nas notícias, com 25%. Por outro lado, Argentina e Brasil perderam 6 pontos cada um, e a Argentina ocupa o segundo lugar depois da Colômbia com um índice de confiança de 26%.
“É difícil separar com precisão a diminuição da confiança na imprensa do ceticismo mais geral em relação às instituições políticas e sociais”, afirma o Digital News Report. Da mesma forma, temas como instabilidade política e eleições polarizadas são características de países onde a confiança nas notícias diminuiu significativamente, apontou o relatório.
No caso da Colômbia, que em 2021 — quando começou a ser medida para o Digital News Report — tinha um percentual de confiança nas notícias de 40%, ela não está alheia a essas tendências globais, disse à LatAm Journalism Review (LJR) Víctor García-Perdomo, autor da seção da Colômbia no relatório e decano da Faculdade de Comunicação da Universidade de La Sabana, na Colômbia.
García-Perdomo disse que há três fatores que influenciaram essa diminuição: o primeiro, comum na América Latina e em alguns países da Ásia e da África, tem relação com os hábitos de consumo: quanto mais as pessoas recebem e consomem informações de plataformas de redes sociais e vídeos, maior a propensão a desconfiar das informações que circulam.
O segundo tem relação com a polarização política.
“A Colômbia viveu um período eleitoral muito polarizado e isso, de uma forma ou de outra, fez com que os meios de comunicação estivessem no centro da polêmica ou que passassem a fazer parte da arena política”, disse García-Perdomo. “Isso deteriora a confiança de alguns usuários nos meios de comunicação por causa dos ataques de políticos de alto escalão e também porque os meios às vezes fazem parte dessa polarização e dessa arena política”.
Em terceiro lugar, apontado pelo relatório como uma tendência mundial, está a desconfiança generalizada nas instituições, que em alguns casos também é consequência da polarização. “Isso obviamente afeta a confiança nos meios porque os meios são instituições democráticas”, disse.
A desconfiança nas instituições, a instabilidade política e a polarização eleitoral convergiram no Peru, o que levou a “minar a confiança nos meios”, especialmente nos tradicionais, disse à LJR Lourdes Cueva Chacón, autora da seção do Peru no relatório e professora de jornalismo da Universidade Estadual de San Diego.
A cobertura eleitoral, disse Cueva, foi um dos fatores que contribuíram para minar essa confiança, já que houve uma cobertura polarizada, segundo a Declaração Preliminar da Missão de Observação Eleitoral da União Europeia.
“No entanto, é verdade que nossa pesquisa [do Instituto Reuters] deste ano foi realizada em fevereiro — antes das eleições gerais — mas o Peru vem atravessando um longo período de instabilidade política”, disse Cueva. “Temos aparecido nas notícias ao redor do mundo pela velocidade com que trocamos de presidentes e pelos graves ataques à imprensa”.
Justamente os ataques à imprensa podem refletir o ambiente polarizado e de desconfiança em relação aos meios e aos jornalistas, disse o relatório. No caso do Peru, em 2025 quatro jornalistas foram assassinados por causas relacionadas ao seu trabalho. “Algo que não acontecia no Peru há décadas”, disse Cueva.
Fortalecer as marcas para conquistar confiança
Um aspecto positivo demonstrado pelo relatório é que, apesar da queda na confiança nas notícias em geral, a confiança em marcas específicas — meios tradicionais em alguns casos — continua relativamente alta no mundo.
Ou seja, em geral as audiências continuam confiando em veículos reconhecidos quando se trata de informação, especialmente em tempos de crise.
“[Em tempos de crise] as pessoas recorrem aos meios tradicionais porque sabem que essa informação é curada e que essa informação pelo menos tenta se aproximar um pouco da realidade”, disse García-Perdomo.
Na Colômbia, por exemplo, as notícias regionais na televisão registram 59% de confiança, e telejornais específicos como Noticias Uno registram 58%, seguidos pelo sinal do canal público com 57%. Embora tenha diminuído em comparação com anos anteriores, ainda continua alta, disse García-Perdomo. Ele acredita que é importante que os meios aproveitem essa confiança e adotem medidas para evitar que ela continue caindo.
Parte dessas estratégias passa por se aproximar mais da audiência e entender o que ela procura. Na pergunta sobre o que as audiências buscam, elas indicam que querem informações mais equilibradas.
“Apesar das disrupções de natureza política, econômica e social, os valores essenciais do jornalismo mantêm sua relevância”, estabelece o relatório. “Os pontos de vista podem se fragmentar em muitos países, mas persiste o apoio a princípios como a imparcialidade, mesmo quando o público expressa insatisfação com certos aspectos de sua experiência informativa. As pessoas ainda se importam com aquilo que as notícias e o jornalismo aspiram ser, tanto em novas formas quanto em certas formas tradicionais”.
Outra maneira de se aproximar da audiência, disse Cueva, é observar onde ela está buscando informação. O relatório, por exemplo, mostrou que há uma tendência clara de consumir notícias em vídeo.
“Minha recomendação seria dedicar mais tempo a plataformas como TikTok e Instagram, mas especialmente ao YouTube, que agora é visto como uma plataforma para encontrar notícias”, disse Cueva. “Tudo isso sem perder sua personalidade ou marca, porque é isso que gera a confiança do público”.
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