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notas sobre a trajetória de Alexandre Machado (Parte 01) – HH Magazine

Publicado em: notas sobre a trajetória de Alexandre Machado (Parte 01) – HH Magazine

Alexandre de Carvalho Machado (Rio de Janeiro, 05 de novembro de 1959) conquistou reconhecimento e consolidou sua trajetória profissional no campo da comunicação e do humor. Embora tenha se graduado em Engenharia Mecânica (PUC-Rio), nunca exerceu a profissão. Talvez porque as ideias e os trabalhos de Machado nunca aconteceram de maneira setorizada e excludente. A produção publicitária, os textos e os roteiros de televisão e cinema ocupam frentes de um mesmo exercício criativo simultâneo. Essa diversidade identifica o espírito inusitado do autor, presente também em episódios da vida pessoal, como quando se tornou Cônsul de Huntt River Province Principality, na Austrália, aos 16 anos. É fácil imaginar o jovem Alexandre achando graça na ideia de se tornar um “Cônsul” de um Principado no meio do deserto australiano apenas enviando uma carta, e exatamente um ano antes de começar a frequentar a redação d’ O Pasquim. Sátira política, situações absurdas e figuras excêntricas (como o Príncipe Leonard, fundador do Principado em 1970) sempre estiveram no radar de Machado.

Contudo, a formação em mecânica parece reverberar na engenharia do texto. A esposa, Fernanda Young, em uma conferência de 2006, comenta que tem

 

muita admiração pelo trabalho dele. Alexandre é formado em Engenharia Mecânica e a estrutura de trabalho dele… ele faz um roteiro como faria um programa de computador. E isso não significa que ele seja metódico, mas é que ele tem um tipo de raciocino muito específico que curiosamente os engenheiros mecânicos costumam ter de forma parecida. É tipo de gente. É um tipo muito estranho. Ele se considera um engenheiro do roteiro no sentido de uma estrutura cada vez melhor […]. E o quanto ele vai na busca por desenvolver uma medida nessa estrutura para descrever a realidade… Porque é difícil descrever a realidade em televisão. E ele tem buscado cada vez mais uma linguagem que dê conta da realidade e do humor (Young, 2006, online).

 

Os roteiros de Alexandre Machado nascem de uma observação aguda da inadequação dos sujeitos, traduzida no exercício do humor situacional que expõe, sobretudo nas dinâmicas de relacionamento (amor, amizade, família), as dificuldades íntimas, o lado mais embaraçoso das neuroses sociais e os desencontros entre ação e afeto. Quando essa engenharia de texto se encontrou com o repertório inusitado e a voltagem poética de Young, criou-se o que ficou conhecido, principalmente, com Os normais (prêmio APCA melhor série de TV). E também Os aspones, O sistema, Super sincero, Minha nada mole vida, As 50 leis do amor, Macho man, Separação?! (indicada ao Emmy Internacional na categoria Best Comedy Series), Como aproveitar o fim do mundo (também indicada ao Emmy Internacional na mesma categoria) e tantas outras séries. Mas é preciso trilhar um bom caminho até chegar nesse ponto.

A estreia profissional aconteceu aos 17 anos como redator d’O Pasquim (1969–1991). O célebre semanário carioca, conhecido pela oposição cultural ao regime militar e pelo humor ácido (e até duvidoso), funcionou como escola das primeiras experiências de criação textual de Machado durante um período de transição editorial da publicação.

Posteriormente, o autor desempenhou papel central na fundação de um dos marcos da sátira jornalística brasileira: o tabloide O Planeta Diário, lançado em dezembro de 1984. Embora o tabloide tenha sido idealizado pelo trio Hubert Aranha, Reinaldo Figueiredo e Cláudio Paiva (todos egressos d’O Pasquim e futuros Casseta & Planeta), Machado desempenhou papel fundamental desde o número inaugural. No Planeta, ele colaborou na construção de uma estética inovadora ao manter o design gráfico sóbrio para veicular manchetes absurdas, subvertendo a seriedade da imprensa tradicional para ridicularizar o cenário sociopolítico brasileiro da época.

 

Alexandre Machado na década de 1980. N’O Pasquim (foto com venda) e ao lado de um dos anúncios publicitários.

 

Nesse contexto, Machado deu vida a uma de suas criações mais icônicas, a romancista de banca Eleonora V. Vorsky. Descrita como uma mistura improvável entre a doçura de Barbara Cartland e o mistério de Agatha Christie, Vorsky tornou-se uma figura cult por meio dos folhetins de humor nonsense que assinava como A vingança do bastardo, Calor na bacurinha e Ardência no regaço. A certa altura de A vingança do bastardo, o narrador afirma que

 

Eleonora V. Vorsky não era uma mulher, era um destino. Uma russa que escrevia como se estivesse batendo um tapete persa na varanda de um hotel em Budapeste. Seus personagens não viviam, eles sofriam de uma patologia crônica chamada ‘enredo’. Levy, o bastardo, era o epítome dessa desgraça: um homem cujo único talento era ser o alvo preferencial das ironias de uma prima que exalava um perfume de pecado e sabonete de hotel barato (Vorsky; Machado, 2007, p. 15).

 

Machado parodiava o sentimentalismo dos romances de banca de revista (Sabrina, Julia, Bianca), mas com um alto teor escatológico e surrealista. A vingança do bastardo (iniciado no segundo número) e Calor na bacurinha, tornaram-se as seções mais duradouras e cultuadas d’O Planeta. Machado consolidou Eleonora como uma entidade independente ao escrever peças de teatro sob esse pseudônimo (como Xifópago e Freud levou pau em ginecologia) e ao publicar as aventuras do anti-herói Levy, personagem central d’A vingança… que conta com duas edições. A segunda edição saiu em 2007, pelo selo Desiderata, da Editora Objetiva. A primeira, lançada em 1987, foi publicada pelo O Planeta Diário mesmo, em formato pocket, com direito a uma festa icônica no Crepúsculo de Cubatão, no Rio de Janeiro. Aliás, Alexandre e Fernanda se conheceram nessa boate, Crepúsculo de Cubatão. Em texto raro (pelo grau de intimidade raramente compartilhada, escrito para o livro de contos Estragos, de Young), Alexandre conta que a história de amor dele e de Fernanda começou

 

em 1963, no famoso assalto ao trem pagador, conhecido como o roubo do século. Ronald Biggs foi o único dos dezessete integrantes da quadrilha que conseguiu escapar da polícia e fugiu para o Brasil, onde, em Copacabana, nos anos 1980, fez uma boate underground chamada Crepúsculo de Cubatão. Fernanda e eu éramos frequentadores do Crepúsculo e acabamos nos conhecendo, graças a minha insistência (Machado, 2016).

 

O absurdo e o (in)comum seguem ladeando os caminhos de Alexandre Machado. Talvez por isso o universo Vorsky seja repleto de situações absurdas e de desejos insaciáveis que, para muitos, simboliza a liberdade anárquica que definia o humor da década de 1980. O ápice desse universo é, certamente, a Prima Roshana e tudo o que ela provoca em Levy:

 

O ódio de Levy por Roshana era algo quase arquitetônico, uma construção sólida de tijolos de desprezo e cimento de humilhação. Ele a observava pelo buraco da fechadura da existência, enquanto ela desfilava sua indiferença em tons de fúcsia e escarlate. Era o triunfo do absurdo sobre a lógica linear das fotonovelas que infestavam as bancas de jornal daquela década perdida (Vorsky; Machado, 2007, p.89).

 

Vorsky não era apenas um nome falso, mas um meio, uma possibilidade de libertação estética que permitia a Machado elaborar de modo próprio os limites do riso e da correção política da época.

As figuras de Eleonora V. Vorsky e Prima Roshana integram uma linhagem de personagens excêntricos que compartilham a mesma gênese de estranhamento e anarquia estética. Essa poética do absurdo e do comum, cultivada por Machado desde as primeiras criações, desdobrou-se na televisão em tipos memoráveis: os arquivistas Tales e Moira (Os aspones); Demente, Regina e Senhor Nicolas Katedref (O sistema e, aliás, Katedref pode bem ser outro pseudônimo de Machado) e Kátia Dornellas (Como aproveitar o fim do mundo), para citar alguns. Todos esses personagens desafiam o convencional e tornam-se verossímeis por meio do humor que subverte a realidade de cada um deles.

O humor inconfundível de Machado e Fernanda Young acolhe personagens com um profundo desajuste em relação à mesmice e aos enquadramentos normativos, sempre transformando o estranhamento em uma linguagem que, de Os normais até Shippados (2019), intriga o telespectador comum e encanta o mais crítico com uma metalinguagem dinâmica, jogos de ambiguidade e um erotismo imprevisível.

É possível evidenciar um universo expandido no qual Machado borra as fronteiras entre produção jornalística e ficção televisiva, ao transpor elementos do universo Vorsky para o horário nobre. Em 2001, no episódio “Ler é Normal”, d’Os normais, Regina Casé interpretou Leonora Vorski, autora de livros sobre relacionamentos, fazendo referência explícita ao pseudônimo de Machado. Igualmente, em 2003, no episódio “Casal que vive brigando não tem crise”, o clássico Calor na bacurinha surge como objeto de leitura e debate entre os personagens Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Bernardo (Selton Melo). Essas menções não são meros easter eggs, mas ironias estratégias que consolidam o imaginário autoral de Machado na teledramaturgia brasileira.

Machado estreia como roteirista na televisão em 1988, como colaborador do humorístico TV Pirata.  Em seguida, integrou equipe de roteiro ou escreveu episódios dos seguintes programas: Dóris para maiores (1991), TV Colosso (1992), A comédia da vida privada (1995, série da qual Young também foi roteirista) e Sai de baixo (1996). Entre O Pasquim, O Planeta Diário e os roteiros para TV, Machado abriu uma frente de trabalho consistente no campo da publicidade, passando por agencias como MPM, Agência da Casa e W/Brasil.

Tudo isso até 2000 quando ele e Fernanda Young conceberam Os normais. O episódio piloto da série foi ao ar em 01 de julho de 2001 e a série se manteve por três anos nas noites de sexta-feira. Os normais transformou-se rapidamente em fenômeno cultural ao retratar, com crueza cômica e sem idealizações, a intimidade ampliada de um casal de classe média urbana Vani e Rui (Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães). A série nunca foi apenas mero entretenimento; ao contrário, fez várias críticas às convenções de gênero, ao consumismo afetivo e às ansiedades contemporâneas. O formato, ao mesmo tempo denso e sagaz, levou Os normais também para o cinema, sendo o primeiro filme de 2003 e o segundo de 2009. Ambos com roteiro assinado pelo casal Young-Machado, como Fernanda gostava de dizer.

Um dos grandes feitos de Os normais foi, sem dúvida, fazer Alexandre Machado migrar de vez para o mundo do roteiro.

 

 

 


REFERÊNCIAS

MACHADO, Alexandre. “Vocês vão ter uma chance que…”. [Orelha de livro]. In.: YOUNG, Fernanda. Estragos. São Paulo: Globo livros, 2016.

VORSKY, Eleonora V.; MACHADO, Alexandre.  A vingança do bastardo. São Paulo: Desiderata/Objetiva, 2007.

YOUNG, Fernanda. SEMPRE UM PAPO. Fernanda Young no Sempre Um Papo [2006]. YouTube, 27 mai. 2012. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5x1hmyPv_qk&t=2385s Acesso em: 01 de março.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Créditos das imagens: Acervo pessoal Alexandre Machado.

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