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A retórica do enlace

Publicado em: A retórica do enlace

Clara Moreira é natural e residente de Recife (PE) e possui formação autônoma na área das artes plásticas. Sua produção caracteriza-se pela exploração do desenho enquanto fenômeno performático e extensão somática. Sua pesquisa investiga a materialidade do traço em diálogo com o corpo, subvertendo o desenho de uma categoria estática para um estado de “artesania de corpo”, onde o gesto artístico emana de uma exaustão física e poética. Segundo a artista, o desenho atua como um elemento de fricção e arrasto sobre a própria identidade biológica e simbólica. Formada no seio da tradição popular recifense, Moreira concilia o rigor técnico aprendido na infância com uma produção contemporânea de alta relevância institucional.

A contemporaneidade dos conceitos e materialidades da obra da artista recifense dialoga com a complexidade da arte barroca. Para esse texto, investigaremos as relações entre essas práticas artísticas, com destaque para a autenticidade do fazer artístico autônomo que vem se tornando, felizmente, cada vez mais visibilizado no Brasil. As obras de Clara caminham pela intersecção entre a dramaticidade barroca e a subjetividade individual. A figura feminina é central à sua pesquisa, que envolve nuances da memória, da construção e da resolução. Do Barroco, Moreira nos traz também o chiaroscuro (os usos da luz e das sombras), a profundidade e a expressão corporal que acentua o movimento e as tensões do ser. Dois elementos constituem a chave para estabelecermos a dialética entre o contemporâneo e o barroco: a metafísica do nó e a estética da dobra. O díptico “Ato” e “Desato”, sem data, são um exemplo do uso perspicaz desse conjunto de referências:

 

Imagens 1 e 2 – “Ato” e “Desato”, de Clara Moreira, sem data.

Fonte: Prêmio Pipa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/clara-moreira/

 

A escolha do suporte e do material, o lápis grafite sobre o papel de algodão, reflete a dualidade entre o local e o estrangeiro. O papel de algodão confere a textura fibrosa, áspera e irregular que se assemelha aos tecidos de algodão puro, tão presentes na cultura artesanal nordestina. O uso do grafite em um material como esse nos leva a refletir, justamente, sobre as dificuldades de se identificar um nó (no sentido subjetivo) e de se desfazer dele. O controle sobre as luzes e sombras é um exercício à parte, nos trazendo a noção da demora para o desembaraço. O nó se torna um evento dramático, mas necessário. As fitas, materiais moldáveis, estão localizadas no centro do peito, em uma região que nos remete à cavidade torácica e nos permite interpretar que o ato e o desato podem ser realizados tanto pela figura à qual as fitas “pertencem”, quanto por outra pessoa. Para termos uma noção da importância das escolhas materiais através das quais se produz a narrativa imagética, podemos compará-la com a obra “Andava com um ovo preso à garganta por dois fios de cabelo – está para nascer palavra que”, um desenho feito com lápis grafite sobre papel:

 

Figura 2 – Andava com um ovo preso à garganta por dois fios de cabelo – está para nascer palavra que, grafite sobre papel, de Clara Moreira (2020):

Fonte: Prêmio Pipa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/clara-moreira/

 

O papel comum, que utilizamos no dia a dia, possui uma versatilidade e maleabilidade que permite à artista criar profundidade através do chiaroscuro e preencher o fundo com as sombras que marcam a tensão do silêncio. Os fios, dessa vez, são fios de cabelo. Finos, mas resistentes, sustentam o ovo que representa a garganta entalada, aquilo que muitas vezes fica preso em nossos pensamentos e se recusa ou é forçado a não se tornar expressão. A palavra que está para nascer é fruto do silenciamento, daquilo que não é espontâneo. Assim, a obra ganha uma dimensão histórica que reverbera o silêncio e exalta a voz e a palavra como instrumentos de resistência e subversão à escuridão da realidade em que a personagem se encontra. A materialidade do impulso pela liberdade é uma constante no trabalho de Clara Moreira, assim como a anatomia da trama. É interessante observar que o desenlace muitas vezes se aproxima do desatino, termos com cargas distintas quando aplicadas à expressão feminina: o espaço entre o nó entre o desfazer do mesmo implica uma dupla perspectiva, a interior e a exterior, criando espectros dos binarismos de gênero. A mulher, silenciada, se prepara para um ato que pode lhe gerar reprovação. Para ela, esse mesmo ato é uma questão vital. Está em jogo a sua percepção da realidade, a sua tolerância às tensões da vida. A escolha pela resistência demonstra o disparate entre as prioridades da silenciada, e daquele ou daqueles que se beneficiam de alguma forma com a ausência da mulher no espaço simbólico.

Por fim, a série da qual gostaríamos de tratar é “Criar asas”, composta por dois desenhos de lápis de cor sobre papel. Produzido em 2023, o díptico foca na resolução ou no desenlace para alçar vôo:

 

Fonte: Prêmio Pipa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/clara-moreira/

Figura 3 – “Criar asas I”, lápis sobre papel, de Clara Moreira (2023):

 

O sentido metafórico da trama têxtil enquanto representação do conflito humano em muito se assemelha ao de obras barrocas como “Nossa Senhora desatadora de Nós”, de Schmidtner, pintada por volta de 1700. O desate como ato de cura, de perdão (ou auto perdão) e de resolução é comum às duas obras assim como a presença da fita como suporte da narrativa temática. Na pintura barroca, Nossa Senhora é quem desata os nós dos fiéis em uma alusão à remissão dos pecados. Na obra de Clara Moreira, vemos uma composição que entrelaça o corpo à experiência individual da cura. Essa interiorização é importante para distinguir os dois desenlaces e para conferir aos desenhos a sua própria historicidade. Não estamos falando de uma releitura, mas de uma reinvenção. No barroco, o nó está entre ornamento e a representação do infinito e da complexidade intelectual.

 A dobra e o nó são elementos que também trabalham o visível e o oculto, a unidade que residiria entre a matéria e o pensamento. Gilles Deleuze (1991) se vale dessa concepção para questionar a rigidez da separação entre o interno e o externo a partir da leitura de Leibiniz e da análise de obras barrocas. Para o filósofo, a superação desse dualismo seria possível através do entendimento de que o que lemos como interior ou exterior ao nosso ser seriam, na verdade, dobras de uma realidade em que essas dimensões se complementam. Esse movimento tudo tem a ver com a subjetividade em Clara Moreira, que se desenvolve à maneira de uma fita de Moebius. Ela se permite existir a partir das dobras das forças exteriores sobre as forças interiores em contínua transição. A textura, comum ao barroco e nas obras da artista recifense, deixa de ser apenas um acabamento para se tornar a expressão da estrutura da obra: relevos, luzes e sombras expõem a textura enquanto pensamento, ou seja, o próprio processo de resolução e de desate do nós. Os usos dos drapeados geológicos que, no caso das obras analisadas, está na escolha pela textura dos materiais e pelos contrastes entre eles, coexiste com outro conceito da filosofia deleuziana, que é a repetição diferenciada. As fitas e os fios são trabalhados de formas semelhantes, mas nunca iguais. Representam instantes diferentes, sensibilidades diferentes, ações diferentes.

A transição entre o peso e leveza proporcionados pelo movimento das figuras femininas destaca o gênero enquanto revestimento, e não como essência. As curvaturas do trato com os nós nos falam dos processos históricos, sociais e políticos “dobrados” que contribuem para a formação da nossa interioridade. Judith Butler (2003), em sua teoria queer, enfatiza a performatividade e as potencialidades do discurso. Ambos os autores, Deleuze e Butler, trazem conceitos que recusam o binarismo, aspecto fundamental quando analisamos as obras sob a perspectiva de gênero. Corpo e performance social são superfícies em contínuas dobras, jamais estáticos. Assim, o devir na obra de Clara Moreira não se refere a um destino final, mas a uma constante modulação marcada pelo movimento de diferenciação. Em cada obra, vemos um acontecimento, uma forma de resistência pelo que podemos chamar de “linhas de fuga”: são dobras não previstas pelo sistema que criam um espaço de intimidade que escapa ao controle de grandes estruturas.

A produção de Clara Moreira estabelece, portanto, um campo de resistência onde o desenho deixa de ser suporte passivo para se tornar extensão somática e manifesto político. Através da dialética entre o rigor técnico da tradição recifense e a subversão dos binarismos contemporâneos, a artista reconfigura a herança barroca não como mimesis, mas como uma ontologia da dobra. O uso do chiaroscuro e a manipulação tátil de materiais como o grafite e o papel de algodão transcendem a estética, operando como metáforas da fricção identitária e do silenciamento histórico imposto ao corpo feminino. A análise das obras revela que o nó e a fita não são meros ornamentos, mas representações de um devir-mulher que se processa em movimento contínuo. A “artesania do corpo” de Moreira não apenas visibiliza as tensões do ser mulher, mas propõe o desate do nó como um ato vital de libertação e reinvenção de si, onde a arte se afirma como o espaço soberano da palavra que, finalmente, nasce.

 

 

 


REFERÊNCIAS

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de Renato Aguiar. 1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o Barroco. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. Campinas: Papirus, 1991.

 Prêmio Pipa – Clara Moreira. Disponível em: https://www.premiopipa.com/clara-moreira/ Acesso em 05 de maio de 2026.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: Reprodução. Pedra, de Clara Moreira (2021). Disponível em: https://www.premiopipa.com/clara-moreira/ Acesso em 5 de maio de 2026.

Fonte: A retórica do enlace
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