Feminismos e silenciamentos
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A próxima “Conversa com a Academia” será feita entre a criadora espanhola Paloma Calle que estará em Coimbra em residência de criação, durante o mês de novembro, para desenvolvimento do seu projeto Paloma Calle que se calle.
A propósito da sua investigação artística, dedicamos a próxima conversa ao tema “Feminismos e silenciamentos”. A investigadora convidada é Ana Oliveira
Resumo e mote da conversa: “Paloma Calle que se cale” foi a primeira frase que o patriarcado injetou na artista, dita pelos seus colegas de escola – que se sentiam no direito de a mandar calar quando ela se levantava contra eles. Vivemos ainda num lugar de silêncio para o qual o patriarcado relega as mulheres, especialmente no espaço público? Ainda é necessário erguer a voz, ter agência e apropriar-nos do nosso lugar de expressão que nos foi roubado. E o que acontece se as mulheres são lésbicas, divorciadas, artistas precárias, neurodivergentes, vítimas de violência sexual, imigrantes, e fora de todas as convenções aceites pela sociedade heteronormativa?
O que são as Conversas com a Academia?
Linha de Fuga promove este ano (até Março de 2024) as residências Contra|o|tempo, convidando artistas a residir e desenvolver as suas criações artísticas na cidade.
A partir das suas práticas artísticas e das pesquisas que desenvolvem, propõem tratar determinados temas que são também foco de atenção em muitas investigações académicas. Parece-nos, como tal, lógico que numa cidade universitária se proponha um diálogo entre investigações – académicas e artísticas. Numa parceria entre Linha de Fuga e CES/Observatório das Masculinidades interessa-nos promover estes encontros.
Estas são oportunidades de estabelecer uma relação entre a produção de conhecimento que existe no seio de processos artísticos com as que se desenvolvem dentro da Academia. Porque é interessante trabalhar determinado tema e assunto? Como se investigam e trabalham os dados a que se acede? De que forma estas duas áreas podem estabelecer pontes na visibilização de determinados assuntos? Como podem ser fonte de informação uma da outra? O que é investigação artística e investigação académica? Estas são as perguntas que dão mote às Conversas com a Academia.
Como se processa esta conversa?
Esta é uma conversa onde se pretende falar, durante 1h, sobre o que cada convidado – artista e académico – têm vindo a descobrir sobre o tema proposto, com a maior tranquilidade e com o conhecimento que adquiriram nas suas investigações e que possam permitir uma riqueza de perspetivas.
Será feito na Rádio Baixa, num sistema em que a participação é aberta a todos os que quiserem participar. Não existirá mediação, mas sim uma introdução sobre o tema.
Cada parte pode trazer os convidados que quiser e todos podem participar.
A conversa será transmitida em streaming, ficando posteriormente gravada na nossa web e canal youtube e associada a esta residência artística.
Quem é o artista e qual o seu projeto
Paloma Calle que se calle era uma frase muito usada pelas crianças da minha escola em situações em que as questionava, recusando-me a seguir os mandatos que os estereótipos de género me impunham. De fato, ao longo da minha vida, calei-me várias vezes em inúmeras situações em que gostaria de falar ou gritar. E, como eu, absolutamente todas as mulheres que conheço.Com esta nova criação, que terá o formato de um monólogo cómico-dramático, quero elevar a minha voz e contar a minha história, não a partir de um lugar de vítima, embora o tenha sido, mas sim a partir de um lugar de sobrevivente, mas também a partir do lugar de uma mulher branca, europeia, cisgénero, que também precisa estar ciente dos seus privilégios e do seu lugar de expressão e poder a partir daí. A escrita deste projeto será feita em colaboração com Gabriela Wiener, mulher racializada, migrante, mãe e bissexual, alguém que costuma escrever sobre relações interpessoais e políticas do corpo. Ambas fazemos parte do coletivo Famílias HD (famílias heterodisidentes), fundado por mim em 2018 no âmbito do programa “Uma Cidade, Muitos Mundos” da Intermedie (Matadero Ayto de Madrid), que continua ativo até hoje.
Notas biográficas
Paloma Calle. Artista madrilena licenciada em Comunicação Audiovisual (Univ. Complutense). Formada em teatro e dança em Madrid, Berlim e Roma ao longo de 10 anos. É formada como terapeuta Gestalt na escola madrilena GPYF , Gestalt Psicoterapia y Formación (única escola gestáltica com perspetiva de género de Madrid). O seu trabalho é desenvolvido num território híbrido entre a pesquisa e a criação em artes vivas e visuais, educação não formal e ativismo, sendo também atravessado por uma perspetiva transfeminista intersecional, que diverge da norma heterossexual. Na sua prática artística propõe um pensamento a partir do fazer, situado e encarnado a partir do corpo e da própria experiência da vida. Interessa-lhe trabalhar na legitimação do conhecimento ou aprendizagem, fora da pesquisa e do pensamento mais tradicional ou académico, mas sem os renunciar. Formada em Comunicação Social e em Artes Cénicas (dança e teatro) entre Berlim, Madrid e Roma, tem desenvolvido as suas próprias criações desde 2006, com apresentações na Europa, América do Sul e Ásia. Fundadora do coletivo «Familias HD (por heterodissidentes)», ativo desde 2018. Combina tudo isto, não sem dificuldade, com o trabalho doméstico e a educação dos seus dois filhos.
Ana Oliveira é socióloga e investigadora no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES). Ana Oliveira é doutorada em Estudos Feministas (2018), pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com uma tese no campo dos estudos feministas do direito. Centrada na expressão normativa do assédio nas fontes do direito penal e laboral, esta tese foi publicada pela Imprensa de História Contemporânea (IHC FCSH-UNL) com o título “Assédio: abordagens sociojurídicas à sexualidade”. Ana O. desenvolve investigação no CES desde 2009, tendo colaborado em diversos projectos nacionais e internacionais no campo dos estudos sociais do direito. Estes projectos abordaram temas como a violência doméstica, tráfico de seres humanos, discriminação sexual e LGBT, feminização das profissões jurídicas, políticas nacionais e europeias de protecção internacional e asilo e, mais recentemente, homicídios nas relações de intimidade. Os seus interesses de investigação incluem o estatuto jurídico da sexualidade e os estudos sociais e culturais do direito; matérias que convergem no projecto “Assédio sexual: lutas sociais e problemas normativos”, com o qual foi financiada (2022) no âmbito do Concurso Individual de Estímulo ao Emprego Científico (promovido pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia – FCT).