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Historiadoras/es e o paralelismo charlatão

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“Paralelo” pode significar muitas coisas. Para a geometria, denota duas ou mais retas que se situam no mesmo plano, porém jamais se cortam. No sentido conotativo, significa algo que existe ou ocorre concomitantemente com um grupo, atividade ou instituição dita oficial. Com isso em mente, podemos afirmar que a produtora Brasil Paralelo assim é chamada por se caractarizar como uma criadora de narrativas históricas que escapam dos parâmetros das narrativas acadêmicas. Não somente é outra criadora de narrativas, mas é também uma reta que, por meios discursivos diversos, pretende destruir todas as outras retas paralelas que sejam ideologicamente diferentes. Para a produtora, ser paralelo é ser localizado fora de um sistema considerado corrompido moralmente. É ser alheio aos processos nefastos que, de acordo com suas narrativas, arruinaram o desenvolvimento político, econômico e social do país nas últimas décadas. Ser paralelo é ser diferente e, portanto, especial. Superior ao outro, principalmente o outro que pensa por outras vias. Porém, escapa ao entendimento dos idealizadores da produtora que é impossível ser a única reta paralela num mundo repleto de outras retas. Sabemos, inclusive, que o mundo é feito de entrecruzamentos imesuráveis de retas de diferentes naturezas… Então, quem são eles na fila do pão?

Criada em 2016, a produtora soube aproveitar a forte instabilidade política do Brasil para se lançar no mercado não somente como uma fonte de informação alternativa, mas como um “Núcleo de Formação” de ensino à distância onde os assinantes podem ter acesso a conteúdos de História, Filosofia, Ciência Política, Economia, tudo semanalmente, com aulas ao vivo. Como consta no próprio site da produtora, “quem se torna Membro, além de financiar todas produções da Brasil Paralelo, tem acesso exclusivo a maior biblioteca de vídeos voltados para quem busca expansão do intelecto”. Bastante pretensioso, mas como empresa competente que é, estudou as possibilidades do mercado, traçou estratégias, montou uma equipe, investiu em marketing e vendeu seu peixe, um peixe melhor que os outros porque ele supostamente é paralelo, nascido nas águas cristalinas do neoliberalismo. É irônico constatar que, apesar das tentativas desse paralelismo de apresentar-se como alternativa a certos discursos oficiais, sua origem vem de um pensamento muito bem conservado e estabelecido no mundo ocidental, que ressurge com força nos momentos de crise.

Sabemos que não se trata de oferecer a um público interessado por essas temáticas um conteúdo de qualidade. Menos ainda, trata-se de um compromisso de formar as pessoas historicamente e “expandir o intelecto”. O objetivo é suprir uma demanda no mercado da conspiração, estabelecer um projeto nacional reacionário e lucrar com a desinformação. Como já pontuou o professor Fernando Nicolazzi, da UFRGS, o lucro por si só não deveria ser considerado um problema se o conteúdo vendido pela empresa não fosse intelectualmente desonesto e não tivesse a finalidade nefasta de desconstruir projetos políticos e sociais da nossa breve experiência democrática com revisionismo histórico barato (no sentido ruim da palavra, porque a assinatura do plano anual é de R$197,90). Acontece que esse paralelismo é paternalista, racista, sexista e avesso à pluralidade de ideias. É antidemocrátivo e autoritário. Vende conteúdo meramente opinativo e desprovido de constatações.

É justo e natural que as pessoas, preocupadas com os problemas que assolam o país e tomadas por uma sensação de impotência, busquem informações e conteúdos que auxiliem na compreensão de temas debatidos no cotidiano e que chegam até elas pelas mídias. É ainda mais justo se levarmos em conta que somente 21% dos brasileiros e brasileiras de 25 a 34 anos têm diploma de ensino superior[1]. Num país com 13,1 milhões de pessoas desempregadas[2], não há tempo para os estudos, só para correr atrás do dinheiro do aluguel e das contas mais básicas. Não vamos nem entrar no mérito da segurança pública, que também possui números alarmantes e é uma das principais preocupações da população. Portanto, há um ambiente propício para a proliferação de conteúdos informativos mais facilmente palatáveis e apelativos que encontram no descontentamento da população uma enorme brecha de inserção. “Aprenda rápido”, diz o anúncio do Núcleo de Formação do Brasil Paralelo.

Mas e nós, historiadoras e historiadores nisso tudo? Aprendemos a desenvolver pesquisa científica com base num método historiográfico próprio e a ensinar história de forma crítica, sem jamais cometer a desonestidade de nos vendermos como interlocutores imparciais. Sabemos reconhecer os paralelismos charlatões e podemos facilmente refutar, um a um, os argumentos apresentados pelos veículos reacionários com base em documentos históricos e em densos estudos produzidos e validados no campo acadêmico. Mas o fazemos entre nós, professores e pesquisadores, por meio de espaços que já nos são familiares: grupos de estudos, artigos acadêmicos e projetos de pesquisa. Aliás, há muito ainda a se pesquisar a respeito de conteúdos como os produzidos pelo Brasil Paralelo e sabemos do papel da academia nesse processo.

Mas falhamos, por certo, em dar prioridade a uma difusão acadêmica do conhecimento por nós produzido e desconsiderarmos outros meios de divulgação. Falhamos em não nos apropriarmos de uma linguagem palatável, sedutora, com cores e efeitos especiais, que ensina “rápido”. Sabemos que não é possível ser totalmente bem sucedido num ensino crítico se dispormos de pouco tempo. Sequer podemos afirmar que somos bem sucedidos no tempo que as escolas nos fornecem para ensinar e avaliar os alunos. Mas será que estamos tentando o suficiente? Será que olhamos com desdém para os floreios das narrativas que vendem a história como mera curiosidade a ser consumida – e pior, subvertida – e sequer consideramos em usá-los a nosso favor? Será tão impossível assim fazer divulgação científica de forma honesta, com qualidade (de conteúdo e de apresentação) por meio de uma outra linguagem? Onde falhamos? Existem canais no YouTube de qualidade e excelentes textos circulando em páginas organizadas por pesquisadores responsáveis, mas eles não possuem o mesmo poder de alcance que as páginas negacionistas e conspiratórias.

É necessária a união de pesquisadores com jornalistas e profissionais da área da comunicação para a construção de materiais que sejam uma alternativa da falsa alternativa, do paralelismo charlatão que, sabemos, possui um projeto político bem definido. Essa união precisa ser promovida por incentivo financeiro, seja por via de agências de fomento à pesquisa científica, seja por investimento privado. Não podemos ser ingênuos e achar que um projeto do tamanho do Brasil Paralelo é mantido somente com dinheiro arrecadado das assinaturas. Ou será que um sujeito como Olavo de Carvalho não cobra quantias exorbitantes para verborragizar seus absurdos antifilosóficos camuflados de conhecimento legítimo? Não é possível continuar produzindo conhecimento para nós mesmos, pesquisadores, e ser comentarista de tragédia nas horas vagas. Evidentemente, com cada vez menos recursos para a educação e com o estarrecedor corte nas bolsas de pesquisa nas universidades de todo o país, falta motivação para muitos que depositam na pesquisa científica toda uma expectativa de construção de carreira e de sustento de vida. Sabemos que é uma medida do bolsonarismo autoritário de enfraquecer ainda mais o exercício da ciência e da racionalidade numa era em que a autoverdade é imperativa. Mas talvez já esteja mais do que na hora de usarmos meios paralelos – sem cair no paralelismo – de propagarmos aquilo que tanto nos dedicamos a compreender. Façamos disso um projeto pessoal e político. Depositemos nossos esforços em empreendimentos dessa natureza e façamos dos ensinamentos de Paulo Freire nossos maiores incentivadores em tempos difíceis. Marc Bloch defendia que os historiadores tinham o compromisso de explicar suas pesquisas de forma que todos pudessem compreender, afirmando que “a simplicidade tão apurada é privilégio de alguns raros eleitos” (BLOCH, 2001, p. 41).

Como já defendeu o professor Arthur Lima de Avila, não se combate uma história ruim com outra ainda pior. Como intelectuais que somos, não devemos trocar um desejo absolutista por outro, invertendo apenas o sinal. Isso seria adotar a mesma postura anti-intelectual desse paralelismo charlatão que busca anular a diversidade do pensamento. Não devemos jamais perder de vista que nosso objeto de estudo, a história, sempre foi permeada por disputas narrativas e incessantemente contestada, usada com múltiplas finalidades, por diversos grupos sociais. Cientes disso, não podemos impedir que as pessoas escolham ter perspectivas diferentes, mas devemos informá-las não por simplificações e negacionismos, “mas por histórias ética, teórica e empiricamente responsáveis” (AVILA, 2019).

É possível fazer frente a esses paralelismos charlatões. Temos capacidade intelectual para isso. Falta uma maior organização em torno de um projeto capaz de competir com os discursos autoritários munidos de uma estética sedutora. Mas somos capazes e já passou da hora do individualismo acadêmico abrir espaço para um empreendimento coletivo.

 

 

 


REFERÊNCIAS

AVILA, Arthur de Lima. Qual passado usar? A historiografia diante dos negacionismos (artigo). In: Café História – história feita com cliques. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/negacionismo-historico-historiografia/‎. Publicado em: 29 abr. 2019. Acesso: 23 set. 2019.

BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

NICOLAZZI, Fernando. 2019 – O Brasil Paralelo entre o passado histórico e a picanha de papelão. In: Sul21. Disponível em: https://www.sul21.com.br/opiniaopublica/2019/04/2019-o-brasil-paralelo-entre-o-passado-historico-e-a-picanha-de-papelao-por-fernando-nicolazzi/. Publicado em: 7 abr. 2019. Acesso: 23 set. 2019.

 

 

 


NOTAS

[1] https://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/com-universidades-em-colapso-brasil-tem-uma-das-menores-taxas-de-pessoas-com-ensino-superior-no-mundo-23936365

[2]https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2019/03/29/internas_economia,1042184/brasil-tem-13-1-milhoes-de-desempregados-ate-fevereiro-revela-ibge.shtml

 

 

 


Créditos na imagem:  fotografia Alexey Menschikov.

 

 

 

SOBRE A AUTORA

Isadora Muniz Vieira

Possui graduação em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2017) e mestrado em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2019). Atualmente é discente de pós-graduação da Universidade do Sul de Santa Catarina, no curso de doutorado em Ciências da Linguagem.

Fonte: Historiadoras/es e o paralelismo charlatão

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