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O sagrado e o monstruoso no espelho da vida – HH Magazine

Publicado em: O sagrado e o monstruoso no espelho da vida – HH Magazine

O corpo feminino, enquanto território de urgências cotidianas, convive, no chão dos dias, com o milagre da maternidade e o peso do luto, que dividem o mesmo espaço na cozinha, na cama e no espelho. Sabemos que essa complexidade é, historicamente, geradora de temores e de dispositivos de controle para o que, segundo o pensamento androcêntrico predominante em sociedades como a brasileira, permanece sendo um mistério quase inalcançável. Por entre discursos, representações e atos cerceadores, a arte emerge como gesto de resistência: é na rotina de enfrentar as fronteiras da própria (in)finitude que a mulher transforma o constrangimento social em destino próprio.

Nas obras de Isadora Jochims e Lola Ramos, recebemos um convite para olhar as marcas do tempo e do sistema não como falhas, mas como a cartografia viva de quem faz da sobrevivência diária a sua forma mais absoluta de arte. Em dobras esquecidas do tempo, onde o pó dos arquivos inquisitoriais tentou abafar o grito e o saber, florescem trabalhos de resgate e ternura. Investigar a memória das “bruxas” é mais do que um exercício histórico: é um ato de exumação poética. É devolver o nome às sombras e a dignidade às mãos que, entre ervas, rezas e fogueiras, ousaram curar em um mundo que só conhecia o castigo.

A produção de Jochims, situada na interseção entre a práxis médica reumatológica e a investigação transdisciplinar, debruça-se sobre a ontologia do corpo feminino enquanto território de disputas biopolíticas. Ao tensionar as fronteiras entre vida e morte, maternidade e monstruosidade, sua obra opera uma crítica contundente aos dispositivos de controle institucional e científico que historicamente incidem sobre o corpo. Através de uma articulação sensível entre memória, luto e territorialidade, a prática artística desafia a hegemonia das narrativas clínicas, ressignificando o espaço da saúde como um campo de resistência poética e subjetiva. A investigação histórica de Lola Ramos, por sua vez, promove uma revisão crítica acerca dos processos de perseguição e criminalização de mulheres sob a égide do Tribunal do Santo Ofício em Portugal e no Brasil Colonial. Ao analisar os registros inquisitoriais, sua obra resgata a memória dessas agentes sociais, desconstruindo a caricatura mitológica da “bruxa” para reposicioná-las como detentoras de saberes etnobotânicos e práticas terapêuticas populares. Sob a ótica dos estudos de gênero e da História das Mentalidades, a pesquisa de Ramos demonstra que a rotulação da feitiçaria operou como um mecanismo de controle social e patriarcal, destinado a suprimir autonomias femininas e centralizar o discurso médico-religioso hegemônico. Dessa forma, sua pesquisa não apenas ressignifica o patrimônio imaterial transatlântico, mas também cumpre uma função de reparação histórica ao restituir a agência e a subjetividade a sujeitos historicamente subalternizados.

Isadora Jochims é natural de Goiânia (GO), vive e trabalha em Brasília (GO). A primeira série de obras que vamos analisar é Língua de Fogo, desenvolvida em 2024 e exibida ao público no mesmo ano. Nela, a artista trabalha materiais têxteis na forma de tecelagens em cores quentes e vibrantes como o vermelho, o amarelo e o preto, lembrando chamas. O crochê e o bordado, práticas manuais historicamente associadas ao feminino e ao âmbito privado e familiar, torna-se um espectro de uma força vívida, pulsante e, sobretudo, atuante. O espaço ocupado pela obra cria a sensação de constante movimento, indo contra a noção estática ou perene do feminino. É a natureza transposta no ato de tecer, de criar e, também, de um estado limiar do ser. A língua de fogo seria, portanto, aquelas da performatividades dissidentes, que escapam aos instrumentos de domesticação e de mera utilidade social. Os tecidos formam um manto que se espalha e alcança o teto. Além da exibição do traje em exposições, a artista goiana apresenta também fotografias em que porta a vestimenta e circula por entre espaços com construções históricas ou que remetem à dualidade entre a vida e a morte. Essa é a fotoperformance Aparições da Cuca:

 

Figura 1 – “Aparições da Cuca”, de Isadora Jochims, 2024:

Fonte: Prêmio Pipa. Disponível em: https://www.premiopipa.com/isadora-jochims/

 

A Cuca, figura mitológica com raízes ibéricas cujas características passaram por adaptações no Brasil a partir da absorção de elementos indígenas e africanos, carrega uma série de representações distorcidas das figuras femininas, sejam elas maternas ou a das bruxas, sendo associada a uma existência ameaçadora, intimidadora. Das presenças nas procissões realizadas no Minho, em Portugal, à consolidação da sua imagem semi-humana em obras como o Sítio do Pica-pau Amarelo, a Cuca é aquela que vem para assustar as crianças desobedientes. Na obra de Jochims, ela surge em uma forma espectral, acompanhada do seu rastro de fogo que, nessa leitura, também poderia ser interpretado como sangue, símbolo que remete à vida e também à morte. Nessa caminhada entre dois mundos, a Cuca de Isadora Jochims recobra a existência das mulheres sujos conhecimentos da vida prática e espiritual foram, por questões ligadas a disputas de poder políticos e simbólicos, condenados e silenciados, mas nunca realmente apagados. A espectadora ou o espectador poderá reconhecer em si a presença desses saberes, seja em nossas avós benzedeiras, seja nos banhos e chás curativos, seja na busca pelas orientações para perguntas que o dia-a-dia nos traz. Mais do que isso, a obra nos permite identificar em nós mesmos a resistência e a sobrevivência desses saberes. Os espaços escolhidos pela artista acionam a história como território de reverberações dessas existências, ora sagradas, ora monstruosas, ora sujeitos, ora personagens fictícios. Mas sempre ecoando modelos de um feminino autossuficiente e sabedor.

A monstruosidade encontra caminhos cotidianos na série de autoria de Lola Ramos, Monstruosidades Diárias. Se em Jochims fomos convidados a identificar os lugares do sagrado nos fazeres diários em uma perspectiva histórica, na série de Ramos há uma proposta que inverte a reflexão: figuras que se assemelham a mitos assustadores são ilustrados realizando tarefas cotidianas, como tomar banho, assistir televisão, tecer uma vestimenta. Há um duplo movimento de desconstrução da noção do horrendo: aquela realizada a partir da apropriação das figuras, que agora ocupam a contemporaneidade, e aquela que diz respeito à identificação de aspectos desagradáveis ou mesmo considerados “anormais” em nós mesmos. Assim, os monstros de Lola Ramos se tornam a representação da contradição humana em sua eterna busca pelo socialmente aceitável ou pela maquiagem das suas imperfeições, ao invés de aceita-las e, nos casos em que essas práticas ocorrem em desfavor de algo ou alguém, corrigi-las. A série foi desenvolvida em 2021 e conta com diversas ilustrações que abriram caminho para as duas exposições de Ramos às quais gostaríamos de nos dedicar com especial atenção: O diabo, a bruxa e o Deus todo poderoso, e Criações, poções e rebeliões: por um feminismo decolonial, de 2025 e 2026, respectivamente. Ambas articulam-se como dispositivos de reparação histórica e resistência visual, centrados na denúncia da violência institucional e do patriarcado. Enquanto a primeira utiliza uma expografia multimédia e instalativa na Cisterna da FBAUL para evocar a memória das mulheres silenciadas pela Inquisição em Portugal, a segunda amplia essa crítica ao adotar uma perspectiva decolonial, tratando o corpo feminino como território de soberania e cura frente aos legados do colonialismo e da escravidão. As duas iniciativas convergem na utilização da arte como ferramenta de reflexão crítica sobre a subjugação de gênero, transformando arquivos de perseguição em espaços de aliança e visibilidade contemporânea:

 

Figura 2 – “Hábito penitencial perpétuo”, de Lola Ramos, 2025:

Fonte: Lola Ramos – site oficial. Disponível em: https://www.monstro.be/

 

A instalação traz objetos relacionados às práticas de magia de bruxaria na época do Santo Ofício em Portugal, como livros, potes, ervas e outros elementos. Na fotografia acima, vemos uma mulher ler a extensa lista de nomes, bordados, das mulheres condenadas e executadas pela Inquisição. Dentre elas, há nomes de mulheres que viveram no território luso americano durante o período colonial. A obra explicita a violência de gênero, ainda, por revelar que muitas dessas condenações ocorreram pelo fato de que essas mulheres, ainda que não praticassem a chamada bruxaria, se apresentavam como mulheres “indomadas”, “rebeldes”. Na obra O Santo Ofício, o fogo é destruição, mas é, também, vetor da memória dessas opressões:

 

Figura 3 – “Santo Ofício”, de Lola Ramos, 2025:

Fonte: Lola Ramos – site oficial. Disponível em: https://www.monstro.be/

 

A cadeira de madeira alentejana queimada nos traz a perspectiva dos brutais julgamentos aos quais as mulheres eram submetidas. Não sendo o bastante a condenação pela palavra escrita e pela clausura, o fogo era usado como instrumento de apagamento das identidades. Esperava-se que, com essa representação, o mal visto nas figuras das bruxas fosse extinguido da sociedade. Contudo, essa prática era também uma forma de terror pedagógico. Esse esforço pela descaracterização das mulheres é visto ainda hoje, nas inúmeras notícias de ataques de homens a suas namoradas, esposas ou ex-companheiras, por exemplo. O Portal AzMina publicou, no ano passado, uma reportagem preocupante acerca das formas como ocorrem as agressões às mulheres e os feminicídios. O estudo aponta para uma tendência alarmante à agressão simbólica por meio da desfiguração do rosto e da cabeça pelos agressores. Esses crimes marca as mulheres, tal qual o fogo, social e psicologicamente. Um espelho das relações de poder que ainda hierarquizam o gênero e fazem com que um indivíduo se veja no direito de ferir ou matar outro. Identidade, beleza e autoestima são principais alvos.

O que vemos nas obras dessas artistas é a ruptura com as fantasias e os padrões que criam e legitimam a continuidade de práticas de opressão. Joan Scott, ao definir o conceito de eco da fantasia, nos fornece uma reflexão importante a essa discussão:

 

 

[O eco da fantasia] É antes a designação de um conjunto de operações psíquicas por meio das quais certas categorias de identidade são empregadas para omitir diferenças históricas e criar continuidades aparentes. (…) Ele não presume saber a substância da identidade, a ressonância do seu apelo ou as transformações pela qual passou. Presume apenas que onde há evidência do que parece ser identidade perene e imutável, existe uma história que precisa ser explorada. (SCOTT, 2024, p. 101)

 

A conformação de imagens em torno das curandeiras, praticantes de religiões pré-cristãs ou simplesmente pagãs migrou da realidade para o mito, e passou a ocupar um lugar didático daquilo que não deve ser aceito ou tolerado. As formas de violência de gênero, contudo, seguem operando sob diferentes meios e dispositivos de legitimação. A figura Cuca é, antes de tudo, uma tentativa de estereotipar e essencializar de forma caricata as mulheres cujos conhecimentos não faziam parte da hegemonia cristã. Ela é também o espectro das milhares de mulheres que realmente existiram, um símbolo da ambiguidade entre o desespero do machismo estrutural para controlar o feminino e, na obra de Isadora de Jochims, ela representa, justamente, a impossibilidade desse domínio, uma vez que a Cuca é a soma de todas as histórias que um dia tentaram apagar. A obra de Lola Ramos se aprofunda nessa denúncia porque nos chama a atenção para aquelas formas de agressão que são condenáveis por pertencerem, supostamente, a um passado ao qual não se deseja voltar. No entanto, o que vemos é a manutenção dessas estruturas. Seguimos por um caminho de hipocrisia, de ilusões, e muito disso vem, justamente, da cruel “coerência” que circula em qualquer discurso que favoreça o falocentrismo em detrimento das mulheres, das crianças, da natureza. Precisamos começar a nos questionar, para ontem, o peso que certas narrativas têm na quantidade assombrosa de notícias sobre violência. Afinal, essa mesma coerência ilusória está presente, há muitos anos, nas mídias e nos produtos que consumimos. Da televisão à internet, dos filmes à vida real. Seguiremos alienados às consequências de uma fantasia fatal?

 

 

 


REFERÊNCIAS:

Lola Ramos – site oficial. Disponível em: https://www.monstro.be/ Acesso em 20 de maio de 2026.

Prêmio Pipa – Isadora Jochims. Disponível em: https://www.premiopipa.com/isadora-jochims/ Acesso em 20 de maio de 2026.

ROSETTI, Mariana; CHURCHILL, Paola. Traumas faciais: a violência de gênero que tenta descaracterizar mulheres. In: AzMina. Disponível em: https://azmina.com.br/reportagens/traumas-faciais-a-violencia-de-genero-que-tenta-descaracterizar-mulheres/ Acesso em 20 de maio de 2026.

 

 

 


Créditos na imagem de capa: reprodução. Aparições da Cuca, de Isadora Jochims. Disponível em: https://www.premiopipa.com/isadora-jochims/ Acesso em 20 de maio de 2026.

Fonte: O sagrado e o monstruoso no espelho da vida – HH Magazine
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