Antes do Começo, entre o sublime – HH Magazine
Publicado em: Antes do Começo, entre o sublime – HH Magazine
“People think that creativity comes from freedom. That’s a fundamental misunderstanding. Creativity comes from obstacles, limitations and questions.”
Bergström
A trajetória de John Frusciante entre os anos de 1992 e 1998 representa um dos estudos de caso mais documentados e complexos na história da música contemporânea no que tange à degradação física e sua subsequente restauração biopsicossocial. O processo de sua reabilitação, frequentemente caracterizado como miraculoso ou atipicamente veloz, exige uma observação minuciosa das variáveis clínicas, psicológicas e ambientais que permitiram que um indivíduo em estado de falência sistêmica retornasse à produtividade artística de elite em menos de um ano. Esta breve análise em duas partes detalha a etiologia do seu declínio, os procedimentos médicos realizados no hospital Las Encinas e a realidade matizada de sua sobriedade pós-1997, abordando o uso contínuo de substâncias lícitas e as flutuações e processos de seu estado mental (FORREST; ROBERTS, 2013; WILONSKY, 1997).
Para compreender a velocidade da recuperação de Frusciante, é importante quantificar a profundidade do abismo de onde o artista emergiu. A saída de John Frusciante do Red Hot Chili Peppers, em maio de 1992, durante a turnê japonesa do álbum Blood Sugar Sex Magik, tornou-se o início de um mergulho deliberado em um longo processo de autodestruição. Esse processo assume o caráter de uma escolha existencial, na qual o vício surge como uma decisão consciente de se tornar um adicto para escapar de uma depressão existencial paralisante que o impedia de ler, pintar ou tocar música de forma significativa (WILONSKY, 1997).
Durante o posterior período de reclusão em sua residência em Hollywood Hills, a rotina de Frusciante evoluiu para um protocolo de uso abusivo de diversas substâncias. O custo diário de sua dependência era estimado em aproximadamente 500 dólares, financiados em grande parte pelos royalties de seu trabalho anterior e, posteriormente, pela venda de sua coleção de guitarras e pela gravação de álbuns solo voltados exclusivamente para a obtenção de capital para entorpecentes.
Entre 1992 e 1993, as principais substâncias utilizadas por Frusciante eram a heroína e a cocaína, que se davam através de uma mistura e uso intravenoso continuamente crescente após a saída da banda. O uso contínuo se refletia no início na perda de peso e no isolamento social.
Nos anos seguintes, seu abuso incluiria o uso de crack e álcool, adicionalmente em uso público (como no documentário holandês da VPRO) (FRUSCIANTE, 1994), atingindo o ápice nos anos de 1996 e 1997, com a adição do abuso de Valium. O abuso contínuo de substâncias químicas resultaria em um estado crítico de saúde, uma infecção sanguínea sistêmica e a deterioração completa de seus dentes.
Imagem de 1994. JF effects.
John Frusciante e Toni Oswald, sua namorada na época, vestindo as roupas um do outro. Foto tirada em Paris, na tour dos Red Hot Chili Peppers.

A filosofia de Frusciante durante esses anos estava profundamente ligada a uma percepção de que as drogas eram ferramentas espirituais que permitiam o contato com “espíritos” e “vozes” e exerciam uma função de refúgio da realidade. Em entrevistas da época, ele afirmava que a heroína era uma forma de manter a alma protegida da feiura do mundo, permitindo que ele continuasse a criar arte em uma dimensão quase própria, a qual ele chamava de “quarta dimensão” (FRUSCIANTE, 1994). No entanto, essa descrita proteção espiritual era acompanhada por uma devastação física sem precedentes.
O estado físico de Frusciante em 1996 e 1997 era o de um indivíduo em estágio terminal de negligência biológica. Relatos de jornalistas e amigos da época o descrevem como um “esqueleto coberto por uma fina camada de pele”, com os dentes superiores quase inexistentes, substituídos por lascas amareladas que sobressaiam através de gengivas podres. A infecção oral que o acometeu foi diagnosticada como potencialmente letal, pois o apodrecimento dos tecidos gengivais poderia evoluir para uma septicemia craniana ou endocardite (WILONSKY, 1997). Em fevereiro de 1996, Frusciante esteve clinicamente próximo da morte.
John sofria de uma infecção sanguínea sistêmica e uma deficiência severa de glóbulos vermelhos, chegando ao ponto de ter apenas uma pequena fração do volume de sangue necessário para a manutenção de suas funções vitais.
Uma transfusão de sangue de emergência foi realizada para salvar a sua vida.
Contraditoriamente, seu primeiro pensamento após a estabilização foi retornar ao uso de drogas, que demonstra um reflexo da gravidade da reprogramação dopaminérgica causada pelo uso prolongado de crack e heroína (WILONSKY, 1997).
Além da saúde interna, os danos externos eram extensos e especialmente visíveis. Seus braços e pernas estavam cobertos de abscessos permanentes causados pela administração inadequada de substâncias intravenosas e por queimaduras de cigarro que ocorriam quando ele perdia a consciência. Esses abscessos tornaram-se cicatrizes profundas e queloides que exigiriam intervenção cirúrgica estética anos depois (PAGE, 2002). Há em Frusciante a demonstração de um violento contraste entre sua pulsão artística e criativa e da destruição e falência de sua carne. Falência esta que deixou marcas eternas em seu corpo.
Fotografia que retrata as cicatrizes deixadas pelo seu abuso de drogas no decorrer da década de 1990.

Sua falência biológica culminou na decisão final de John Frusciante em buscar ajuda no final de 1997, em meio a um cenário de desolação total. Ele havia sido despejado de sua casa, suas guitarras haviam sido roubadas ou vendidas, e ele vivia de forma nômade entre hotéis de baixo custo e o carro de sua ex-namorada, Toni Oswald (FORREST; ROBERTS, 2013; WILONSKY, 1997). O catalisador psicológico foi uma série de alucinações auditivas e visuais intensas. Frusciante relatou ouvir uma voz alta em sua cabeça que afirmava categoricamente: “Você estará morto até o seu aniversário, a menos que fique limpo”.
Com o aniversário de 28 anos se aproximando em março, e após perder cerca de seis ou sete mil dólares em um táxi (dinheiro que era sua última reserva) ele aceitou o conselho de Bob Forrest para se internar. A alternativa, segundo o próprio John, seria viver em uma barraca nas ruas ou enfrentar a prisão por porte de drogas após ter sido detido brevemente no centro de Los Angeles (FORREST; ROBERTS, 2013; WILONSKY, 1997).
Em janeiro de 1998, Frusciante deu entrada no Hospital Las Encinas, em Pasadena, uma instituição renomada por seu tratamento de desintoxicação e estabilização psiquiátrica. O tratamento, para além do psicológico, foi uma reconstrução física completa e agressiva, financiada parcialmente por doações e acordos com organizações como a MusiCares (FORREST; ROBERTS, 2013). Frusciante passou pelo processo de desintoxicação de heroína, cocaína e álcool. Há relatos de que ele optou por interromper o uso de heroína de forma abrupta (“cold turkey“), o que resultou em cerca de cinco dias de sintomas agudos de abstinência, incluindo tremores, vômitos e dores musculares intensas. No entanto, ao contrário de tentativas anteriores no centro Exodus em 1995, onde ele não desejava realmente parar, em Las Encinas ele demonstrou uma determinação absoluta de “seguir o caminho até o fim”, submetendo-se inteiramente ao programa da clínica (FORREST; ROBERTS, 2013; THEME, 1999). A rapidez da transformação visual de Frusciante deveu-se à intervenção cirúrgica imediata. O hospital e os cirurgiões consultados determinaram que a única forma de conter a infecção oral letal era a remoção completa dos dentes restantes e a instalação de implantes dentários permanentes.
Esse procedimento, com valor estimado em cerca 100.000 dólares, eliminou a fonte de infecção sistêmica que consumia suas energias e permitiu que ele voltasse a se alimentar de forma sólida, algo que ele não fazia há anos, sobrevivendo apenas de fórmulas líquidas calóricas (THEME, 1999; WILONSKY, 1997). Simultaneamente, ele recebeu enxertos de pele para tratar os abscessos e cicatrizes nos braços. Embora as cicatrizes nunca tenham desaparecido totalmente, os enxertos estabilizaram os tecidos e evitaram novas complicações dermatológicas. A reconstrução de seu corpo conduz também uma profunda reconstrução, transformação e reinvenção de si. A transfiguração mental observada em Frusciante veio acompanhada de um impacto psicológico profundo, tema que será mais bem explorado e detalhado na segunda parte dessa escrita.
REFRÊNCIAS
FORREST, Bob; ROBERTS, L7. Running with Monsters: a memoir. New York: Crown Archetype, 2013.
JOHN FRUSCIANTE. Direção: Bram van Splunteren. Amsterdã: VPRO, 1994. 1 videocassete (18 min.), som, color. Exibido originalmente pela emissora de televisão holandesa VPRO.
OSWALD, Toni. John Frusciante e Toni Oswald em Paris. Paris, 1991. 1 fotografia, p&b. Coleção particular da autora.
PAGE, Scarlet. John Frusciante. Londres, 2002. 1 fotografia, p&b. Disponível em: http://www.scarletpage.com.
THEME, Alan. John Frusciante: The Return of the Prodigal Son. Spin, New York, v. 15, n. 8, p. 82-89, ago. 1999.
WILONSKY, Robert. Blood on the Tracks. New Times LA, Los Angeles, v. 2, n. 41, p. 11-18, out. 1997.
Créditos na imagem de capa: Toni Oswald