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Para onde vai a economia brasileira, afinal? Uma reflexão sobre as tentativas de prever os impactos econômicos da crise

Publicado em: Para onde vai a economia brasileira, afinal? Uma reflexão sobre as tentativas de prever os impactos econômicos da crise

 

No início de 2020, a imprensa mundial relata casos de um estranho vírus que danifica o sistema respiratório humano e se espalha rapidamente entre a população. Agora, em novembro, nos encontramos em meio a uma pandemia, gerando uma crise que vai além da sanitária, já que, por conta das características do vírus e sua contaminação, grande parte do comércio e da indústria deve ser paralisado e bilhões de pessoas confinam-se em suas casas. Diante cenários como esse, torna-se imprescindível analisar quais serão os impactos na economia global e até que ponto as consequências deste súbito deslocamento, tanto da demanda como da oferta agregada, afetarão o crescimento econômico brasileiro. No entanto, em face a tantas previsões diferentes que muitas vezes se contradizem, surge a pergunta: “Para onde vai a economia brasileira, afinal?”

Responder essa pergunta não é tarefa simples. Por mais que se compute dados e se analise modelos estatísticos, prever com exatidão a queda percentual do PIB, por exemplo, é uma missão quase impossível. Com tantas variáveis incalculáveis e oscilações de realidade constantes, a diferença causada pela simplificação dos modelos econômicos torna-se gritante, fazendo com que economistas, imbuídos de seriedade e profissionalismo, pareçam falsos oráculos buscando resultados em uma futurologia que acerta tanto quanto erra. Soma-se a isso um ponto que afasta completamente o prognóstico econômico do caminho científico: o claro conflito de interesses que guia e determina o resultado final das empresas e organizações “videntes”, mostrando que, mesmo coletando dados iguais, o método interpretativo varia conforme o interesse e a conveniência.

Vamos analisar, continuando no exemplo das estimativas feitas sobre a queda do PIB brasileiro em 2020, como os fatores citados acima distorcem o prognóstico econômico e quais são os problemas práticos dessa distorção.

 

Tabela DIEESE

                     Mudança no PIB
                 Cenário pessimista                                    -8,5%
              Cenário intermediário                                    -4,4%
                  Cenário otimista                                    -2,1%

Impacto da crise do coronavírus no PIB brasileiro

 

 

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), em seu boletim conjuntural publicado em março desse ano, sugere três possíveis cenários do impacto da crise no produto interno bruto brasileiro, apresentando uma queda de 2,1% no melhor contexto, e de 8,5% no pior. Em contraste, o Relatório Focus, um grande resumo das expectativas da entidade “mercado” reunido pelo Banco Central, publicado no início de abril, prevê uma queda de apenas 1,1%, melhor do que o cenário mais otimista indicado pelo DIEESE. O Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmou, no mesmo período, que o PIB brasileiro cairá 5,3% em 2020, uma queda quase 5 vezes maior do que as expectativas do nosso panglossiano mercado. “Ora” – pode pensar o leitor – “é óbvio que o Banco Central não anunciará uma queda esperada de 8% do PIB de seu próprio governo”. Embora esse raciocínio aparente ter um certo sentido, se aceitarmos essa lógica estaremos aceitando que os prognósticos são apenas uma tentativa de manipular a realidade. Além disso, como deixa claro o próprio Banco Central em seu site, os resultados do relatório Focus representam apenas a opinião do empresariado, indicando que ou o mercado sabe algo que nós não sabemos, ou que é uma grande bolha alheia à realidade brasileira, brincando de um faz de conta especulativo incapaz de ir além dos limites da Faria Lima.

A questão a ser discutida, no entanto, vai além da situação na qual nos encontramos hoje. Prognósticos econômicos tem fama de serem voláteis e incertos e tem sua credibilidade constantemente questionada dependendo do possível alinhamento ideológico da instituição que os produz. Diferentemente de outras áreas que lidam com a difícil tarefa de prever o que vem pela frente, como a meteorologia, por exemplo, não há na economia um consenso das ferramentas utilizadas nem um padrão metodológico que poderia guiar, da forma mais neutra possível, as análises feitas. A economia, nós sabemos, não é uma ciência exata cujo foco de observação e estudo são fenômenos físicos dos quais a opinião não difere nem importa, destarte, é natural que suas previsões também passem pelo filtro da falibilidade humana. No entanto, não parece haver o esforço necessário para que o prognóstico econômico alcance a maior veracidade possível. Ao que aparenta, a visão do futuro que se quer, sempre afeta a fala dos economistas quando refletem sobre o futuro que virá, como um meteorologista que diante dados mostrando um fim de semana chuvoso, afirma que haverá sol pois marcou praia com a família.

Para que previsões econômicas não se tornem pesquisas patrocinadas defendendo as vantagens do tabagismo, economistas terão de achar um jeito mais transparente e imparcial de calcular projeções sobre variáveis econômicas, sem esquecer de pensar em como esse futuro poderá afetar a população e quais medidas poderão ser feitas para que os diversos problemas socioeconômicos que perturbam o Brasil desde sua origem sejam atenuados e solucionados através do apoio e conhecimento de causa dos profissionais. A difícil pergunta do título talvez nunca tenha uma resposta convincente. Talvez essa ampla margem de erro que alcançamos seja o limite da economia nas mãos humanas. Talvez, para que tenhamos um futuro melhor, devamos parar de pensar em prevê-lo e começar a tentar compreender o presente e o passado. Afinal, pouco importa qual será o possível crescimento do PIB brasileiro de 2021, a capaz taxa de câmbio em 6 meses ou o provável índice de preços daqui uma semana caso não se realize hoje o máximo possível para que a mudança nesses índices colabore para o fim da miséria, da má distribuição de renda, da violência, da dependência científica nacional etc. Ao que tudo indica, o que veremos amanhã será mais do mesmo: o povo em miséria enquanto homens de terno discutem qual número estará depois da vírgula.

 

 

 


Créditos na imagem: Ensia / Disponível em: https://ensia.com/voices/end-economic-growth-economy/

 

 

 

SOBRE O AUTOR

Arthur Martins Bosquerolli

Estudante de Ciências Econômicas na Universidade Federal do Paraná, integrante bolsista do PET Economia desde junho de 2019

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