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Sinais de perigo sobre as águas – a.muse.arte

Sinais De Perigo Sobre As águas – A.muse.arte

Ficamos estupefactos enquanto, à frente dos olhos, correm as imagens da inundação de Veneza, a cidade Serenissima cada vez mais vulnerável. Edificada sobre um arquipélago de 118 pequenas ilhas, separadas entre si por 160 canais, ao longo de uma lagoa situada entre terra firme e mar aberto, Veneza está protegida do mar Adriático apenas por uma barreira de ilhas e línguas de areia.

Vista da Piazza San Marco inundada
Vincenzo Chilone, 1825
Col. privada

“Acqua alta” é uma expressão veneziana que designa um fenómeno de picos de maré recorrentes  no norte do Adriático e particularmente intensos na lagoa de Veneza. O fenômeno é recorrente, especialmente no outono e na primavera, em condições meteorológicas específicas que, combinadas com os ventos siroco, impedem o fluxo regular de água e obstruem o escoamento da lagoa, provocando a inundação das zonas mais baixas de Veneza, Chioggia e, muito mais raramente, de Grado e Trieste.

O primeiro registo conhecido de uma extensa inundação na lagoa entre os rios Tagliamento e o Pó ficou conhecido como a Rotta della Cucca (a rutura da Cucca), ocorrida em 589 e narrada em 728 por Paolo Diacono na Historia Langobardorum: «Eo tempore fuit aquae diluvium […] quale post Noe tempore creditur non fuisse” (lib. III, 23). Ao longo dos tempos, são sucessivos os relatos de inundações semelhantes e com efeitos igualmente catastróficos. Em 1106, um violento maremoto destruiu Malamocco, localidade da comuna veneziana na zona meridional da ilha do Lido. Em 1600, houve uma frequência invulgar de inundações e, em 1688, a água terá chegado ao pavimento da loggetta de Sansovino, o que implica uma subida de águas de cerca de 2,5m. Mais recentemente, as inundações ocorridas a 4 de novembro de 1966 terão sido das mais catastróficas, inundando 96% da cidade.

O palácio dos Doges, à esquerda (vista parcial) e a igreja de S. Jorge Maior, ao centro, durante as cheias
Veneza, 5 nov. 1966
Foto: AP

Na última semana, a água subiu até 1,87m e submergiu cerca de 80% da cidade, sob uma das piores “acqua alta” conhecida até agora. Com quatro marés acima de 1,40 m, esta foi a pior semana para a cidade desde que as estatísticas oficiais da maré começaram a ser registadas, em 1872. Pela primeira vez, também, registaram-se 3 eventos de subidas da água acima de 1,49m no mesmo ano e na mesma semana e, pela segunda vez, dois destes eventos no espaço de 24 horas.

Piazza San Marco inundada
Veneza, novembro de 2019
Foto: Flavio lo Scalzo/Reuters

No entanto, a duração da precipitação e das rajadas de vento parece ter um efeito mais devastador, pondo a nu a imensa fragilidade da cidade. Por outro lado, não se trata apenas da intensidade do fenómeno, como sobretudo da frequência com que este assume proporções incomuns. 

Basílica de São Marcos
Veneza, novembro de 2019
Foto: Manuel Silvestri/Reuters

A água entrou dentro da basílica de São Marcos, atingindo cerca de 1m de altura e inundando o presbitério e a cripta. O administrador do monumento, Carlo Alberto Tesserin, relembrou que “Nous avions dit l’année dernière que la basilique vieillissait de vingt ans à chaque marée haute mais cela risque d’être beaucoup plus encore pour celle-ci” (Tesserin cit. in Moghaddam, 2019, 16 nov.), advertindo para o efeito nocivo da água salgada no mármore e nos restantes materiais construtivos e decorativos do edifício.

A cidade corre o risco real de ficar definitivamente submersa. Num estudo recente sob o impacto de inundação e erosão devido ao aumento do nível do mar sobre sítios do património mundial, Veneza e a lagoa apresentam um risco máximo de inundação, seguida de outros monumentos e sítios localizados ao longo da costa norte do mar Adriático, como os edifícios paleocristãos de Ravena ou a basílica patriarcal de Aquileia. “The highest number of WHS [World Heritage Site] at risk can be found in Italy (13), which corresponds to 87% of the Italian WHS located in the LECZ, followed by Croatia (6; 86%) and Greece (3; 75%)” (Reimann et al., 2018). Veneza, que submergiu 30 cm ao longo do último século, enfrenta o risco de uma subida do nível do mar de mais de 2m até 2100.

Os riscos elevados decorrentes da subida do nível do mar implicam a criação de estratégias transnacionais e de uma profunda reflexão acerca da salvaguarda do património existente nas zonas de risco. Foi precisamente em Veneza, na sequências das cheias de 1966, que esta questão se tornou uma prioridade conduzindo à criação do sistema MOSE (Modulo Sperimentale Elettromeccanico / Módulo Eletromecânico Experimental), iniciado em 2004 e cuja conclusão estava prevista para 2011 (www.mosevenezia.eu). O sistema assenta na construção de 78 grandes comportas basculantes que permanecem abertas durante as marés baixas, permitindo o movimento natural da água, entre a lagoa e o mar, com um mínimo de interferência, mas que, com a previsão de marés superiores a 1,10m sobre o nível do mar se elevariam até uma inclinação de 45º, bloqueando a entrada de água proveniente do mar Adriático no interior da lagoa. Estas barreiras não interferem no aspeto visível de Veneza, nos atributos históricos e culturais que contribuem para a sua projeção enquanto sítio patrimonial, nem alteram o frágil ecossistema da lagoa. No entanto e segundo palavras do presidente da câmara local, Luigi Brugnaro (cit. in Moghaddam, 2019, 16 nov.), este é um projeto fantasma, cuja conclusão se prevê para 2021, depois de o Consorzio Venezia Nuova, responsável pelo projeto, ter anunciado um novo atraso, alegando problemas técnicos nos tubos de drenagem. Contudo, este não é o único risco a ameaçar a cidade. Ao mesmo tempo que os edifícios históricos afundam a um ritmo alarmante, Veneza enfrenta o crescimento de turismo (overtourism) insustentável em paralelo com a diminuição de residentes.

Porém, o risco de desaparecimento de sítios patrimoniais devido às alterações climáticas não se limita a esta zona. Nas proximidades da costa mediterrânica, os sítios arqueológicos romanos na cidade francesa de Artes correm o risco de ficar submersos, enquanto os monumentos da acrópole de Atenas acusam o desgaste devido à poluição atmosférica e às chuvas ácidas, além da desestabilização estrutural provocada pelo ritmo a que se sucedem os períodos de seca e de inundações. Os efeitos começam a ser cada vez mais evidentes em todas as zonas do globo: a subida das águas, com ondas cada vez mais altas, coloca em situação de risco os Moai da ilha de Páscoa, ao desestabilizar as plataformas onde se inserem as esculturas colossais; as mesquitas e os mausoléus de Tombouctou, no Mali, enfrentam a ameaça do avanço das dunas.

Os sinais estão aí,  vogando sobre as vagas ou em tempestades de areia, face à nossa indiferença que, por momentos, se sobressalta.  O que será necessário para despertar a nossa consciência coletiva?

Referências bibliográficas:
Moghaddam, F. (2019, 16 nov.). Ces hauts-lieux culturels menacés de disparition à cause du réchauffement climatique. France culture. Acedido em https://www.franceculture.fr/environnement/ces-hauts-lieux-culturels-menaces-de-disparition-a-cause-du-rechauffement-climatique?utm_medium=Social&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR1wmsiJOe3DPU300zJmAB_XSDJK4Zk-F2esU9nRb-3jhY4UPW8imwjfVwk#Echobox=1574020453
Paulo, o Diácono, Leonardi, C., & Cassanelli, R. (1985). Historia Langobardorum. Milano: Electa.
Reimann, L., Vafeidis, A.T., Brown, S., Hinkel, J., & Tol, R. S. J. (2018). Mediterranean UNESCO World Heritage at risk from coastal flooding and erosion due to sea-level rise. Nat Commun, 9(4161), s.p. doi:10.1038/s41467-018-06645-9

Fontes das imagens:
Vista da Piazza San Marco, de Vincenzo Chilone:  https://en.wikipedia.org/wiki/Vincenzo_Chilone#/media/File:Chilone-San_Marco_Flooded.jpg
Veneza em 1966: https://www.theepochtimes.com/italy-declares-state-of-emergency-in-venice-after-second-worst-flood-ever-recorded_3147297.html
Piazza San Marco:  https://expresso.pt/internacional/2019-11-15-Praca-de-Sao-Marcos-em-Veneza-fechada-devido-a-nova-inundacao
Basílica de São Marcos: https://ocio.dn.pt/destinos/veneza-debaixo-de-agua-cheias-atingem-nivel-mais-alto-desde-1966/23608/


Fonte: Sinais de perigo sobre as águas – a.muse.arte

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