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As duas Bolívias | HH Magazine

As Duas Bolívias | HH Magazine

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Texto de Hugo Mansilla e Erika J. Rivera traduzido pelo professor Sérgio da Mata.

 

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Obviamente, existe apenas uma Bolívia. Este país, formado por várias culturas em séculos de convivência nem sempre pacífica, exibe uma força notável que não desaparecerá facilmente. Não há indícios sérios de desintegração. O que, de fato, se pode constatar é a existência de diferentes mentalidades, que se expressam em atitudes políticas distintas e às vezes opostas. Embora fraudulentas, as eleições de outubro de 2019, por um lado, e os eventos dos últimos anos, por outro, mostram-nos uma Bolívia pré-moderna, autoritária, conservadora e de origem rural (ou de urbanização recente), que se opõe a uma Bolívia moderna (ou em vias de modernização), mais ou menos democrática, aberta a processos de inovação e majoritariamente urbana. A concepção que aqui explicitamos – uma mera hipótese explicativa – quer fornecer uma abordagem de um fenômeno complexo, obscurecido por ideologias aparentemente progressistas e, no fundo, antiquadas e autoritárias. Os critérios mais importantes da diferenciação feita acima são: nível educacional, acesso a informações de todos os tipos, metas normativas de desenvolvimento e configuração da ociosidade entre os mais jovens, critérios transversais a boa parte da população.

Quando observamos os dados estatísticos, os processos evolutivos de longo prazo, a composição social das universidades e até a forma assumida pelas manifestações de rua, pode-se dizer que estamos diante de um processo evolutivo multiétnico e não diante de um conflito de características raciais. Até o dia de sua queda, o governo do Movimento para o Socialismo (MAS), por razões ideológicas e para manipular segmentos da população, afirmou que estamos em uma situação de colonialismo interno, de conflitos raciais e de reações violentas das aintigas elites. Nada disso resiste a uma análise minuciosa da realidade. A Bolívia, como quase todos os países do Terceiro Mundo, quer passar da tradição à modernidade, e não do capitalismo ao socialismo.

Hoje, a oposição ao MAS é composta em grande parte por setores da juventude. Embora os avanços na educação tenham sido modestos, não há dúvida de que a juventude atual está mais bem informada e tem uma visão mais ampla que a geração de seus pais. Em muito maior número que nos tempos passados, os jovens dispõem de formação universitária e se dedicam a profissões técnicas, ou seja, pertencentes ao âmbito do racionalismo ocidental. Eles conhecem as modas (e as bobagens) comuns em outras latitudes e tendem, portanto, a se afastar dos valores verticais e autoritários de comportamento, o que se expressa imediatamente nas relações de gênero. A maioria dos casos de feminicídio ocorre na Bolívia ainda presa a uma mentalidade pré-moderna.

O que percebe facilmente entre os jovens é um apego claro a valores modernos, racionais e pluralistas. Eles preferem a democracia à ditadura, a alternância de poder ao invés do governo ilimitado do caudilho, a diversidade democrática ao invés da monotonia da única ideologia permitida. Desde a Revolução de outubro de 1917 na Rússia, pode-se dizer que estes valores normativos nunca foram compreendidos por socialistas, nacionalistas, populistas e indigenistas. É esta, precisamente, a situação da mentalidade pré-moderna boliviana. Aqui neste país os intelectuais de esquerda e os setores pré-modernos da população se entusiasmam por slogans como a luta contra o capitalismo e o imperialismo e pela exaltação de metas difusas, mas emocionais, como o culto às vezes exacerbado da dignidade, da soberania e da identidade. Tais valores estão desatualizados no mundo globalizado de hoje.

Na Bolívia e no resto do mundo, os seguidores do socialismo, do nacionalismo e do populismo desprezaram o Estado de Direito, a irrestrita validade dos direitos humanos e o multipartidarismo político. Esta mentalidade obscurantista, mas coberta por uma auréola de progressismo, os impediu, por exemplo, de perceber os anseios das populações da Europa Oriental durante os eventos de 1989-1991. Por isso mesmo não percebem a relevância e legitimidade dos objetivos que inspiram os jovens bolivianos de nosso tempo. Os socialistas acreditavam ter a única visão científica da história e da política, mas, paradoxalmente, entregaram-se de corpo e alma aos mais convencionais caudilhos da história, como Stalin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro e Pol Pot, a respeito dos quais não há necessidade de acrescentar uma só palavra.

Manipular política e ideologicamente os jovens das cidades, independentemente de sua origem étnico-cultural, se tornou algo muito mais difícil de fazer do que antes. Não é, obviamente, tarefa impossível. Porém o discurso do MAS, ao mesmo tempo frívolo e cínico, repleto de falsificações simplificadoras e mentiras infantis, com um estilo primitivo e agressivo destituído de qualquer fundamento válido, já não atraía a juventude em processo de modernização. Admitimos que se trata de uma juventude desprovida de grandes ideais, com preferências estéticas lamentáveis e com sentimentos muito limitados de genuína solidariedade e fraternidade. Entretanto, os jovens já não se deixam impressionar por uma propaganda política antiquada e por líderes corruptos na esfera ética e inaptos na técnico-administrativa.

Os propagandistas do regime que vigorou de 2006 a 2019 diziam que ele representava a mudança. Sua força de atração na Bolívia pré-moderna, sua inegável popularidade e seu capital político-eleitoral baseavam-se no oposto disso: na notável capacidade do regime em preservar e exacerbar as tendências político-culturais que vêm do passado. O MAS contou com a cumplicidade dos setores da economia informal, que no plano educacional e cultural se distinguem por compartilhar antigos preconceitos, porém disfarçados de saberes ancestrais. A cultura do autoritarismo, do paternalismo e do centralismo representa até hoje um dos pilares mais sólidos de uma mentalidade coletiva que se apega às pautas do passado. O modelo educacional do MAS foi o legítimo herdeiro das tradições coloniais. A fim de manter seu capital cultural, o regime intensificou a natureza conservadora de suas práticas políticas. Empregamos o termo conservador no sentido de rotineiro, convencional e às vezes provinciano e rústico, e, sobretudo, machista, paternalista e prebendalista. Esse legado cultural se transformou numa mentalidade antidemocrática, antipluralista e anti-cosmopolita. Uma visão acrítica, auto-complacente e amenizada da própria realidade. Para empregar tais tradições conservadoras em proveito próprio o regime não precisou de muito esforço criativo, mas sim de um uso adequado e metódico de astúcia cotidiana. Assim se explica a facilidade com que se impôs na Bolívia pré-moderna o voto comunitário (voto consigna) e o caudilhismo autocrático do Grande Irmão. Como corolário, pode-se afirmar que o significado deste processo de fato revelou a preeminência das habilidades táticas sobre a reflexão intelectual criativa, a vitória da manobra tradicional sobre as concepções de longo prazo e o triunfo da astúcia sobre a inteligência. Nada disso agrada à juventude de hoje.

Hoje em dia é notório o silêncio de muitos comentadores favoráveis ao MAS em particular, e ao socialismo e ao populismo em geral. Em um futuro próximo seguirão, provavelmente, a seguinte evolução: agora defendem claramente a democracia liberal e, há apenas dez anos, entoaram louvores à ditadura do proletariado, à luta de classes e motes afins. Naquela época, quando o pensamento crítico era o que mais se necessitava, nada fizeram pela democracia pluralista e para evitar a cultura do autoritarismo. É uma cegueira semelhante àquela dos intelectuais marxistas que até hoje não conseguem entender por que os refugiados sírios, africanos, venezuelanos e nicaraguenses se dirigem aos infernos capitalistas e evitam os estados árabes muito próximos de suas fronteiras, ou ainda paraísos como Rússia, Irã, Cuba e outros. Esses refugiados, que, por assim dizer votam com os pés, estão entrando na modernidade e sabem como apreciar as condições de vida nas sociedades ocidentais, onde reina um mínimo de Estado de Direito, resolução pacífica de conflitos e pluralismo cultural. Tudo isso não significa que a modernidade ocidental esteja livre de fatores muito negativos. Em escala mundial e de acordo com as experiências do terrível século XX, o modelo democrático-pluralista e a cultura do racionalismo constituem simplesmente o mal menor, algo bastante razoável em termos históricos realistas, mas difícil de entender sob a perspectiva das emoções. Uma sociedade relativamente culta e próspera, como a Alemanha do período 1930-1933, se empenhou, mediante eleições livres, para escolher a pior alternativa imaginável, o regime nazista. E a Argentina, um país bastante avançado, vota há 75 anos, em eleições irrepreensíveis, num absoluto anacronismo como é o peronismo.

Também a Bolívia pré-moderna, profunda, é passageira. Padrões normativos de comportamento podem durar várias gerações, mas também podem ser gradualmente transformados pela educação e pelo contato com outras culturas. Aí reside a esperança de uma profunda democratização da sociedade boliviana, esperança fortalecida pela atitude racional e corajosa da juventude. De fato, todo o povo boliviano pode se orgulhar genuinamente do que foi alcançado a partir de 20 de outubro de 2019. A mobilização de amplos setores sociais, sem liderança vertical, terminou em três semanas com uma ditadura que possuía algum apoio popular. Foi um exemplo para todos: com um mínimo de vítimas e derramamento de sangue e em muito pouco tempo, um regime autoritário foi derrubado.

Quem se rende? Quem se cansa? É a palavra de ordem expressa em diferentes cordões urbanos em toda a Bolívia e que possivelmente marca o início do século XXI em nosso país como uma interpelação das duas Bolívias. Esse slogan poderia conter o ônus histórico de construir uma cidadania moderna, basicamente como resultado das reformas educacionais ocorridas desde 1909. Diante do centralismo predominante e de fraturas não resolvidas, tais como regionalismo, classe e etnia, emerge um novo projeto de Estado rumo ao Bicentenário da República em 2025.

É preciso salientar que atualmente as duas Bolívias não expressam mais essa separação étnico-racial em todo o território. Tal concepção reflete um problema de mentalidades: uma justaposição que ultrapassa o espaço físico e a ordem social orgânica na Bolívia. Não é um problema racial. Em pleno século XXI, alguns mantiveram esse discurso para fins instrumentais e de propaganda. Da mesma forma, o discurso regionalista está gradualmente se perdendo no passado devido aos lentos processos de integração no país. De modo que as duas Bolívias representariam o seguinte: por um lado, a Bolívia corporativista, clientelista, que responde às elites conformadas por seus próprios interesses; e, por outro, a Bolívia que exige uma visão de Estado com projetos sérios que satisfaçam as aspirações dos diferentes departamentos em toda a extensão do país.

A Bolívia com a visão retrógrada não está apenas na esfera pública, mas também na esfera privada. Em outras palavras, não está apenas no discurso instrumental politizado, mas também nos distintos lares bolivianos, estejam eles na zona rural ou na urbana. Para alguns, bastou um líder que lhes desse segurança, não importando que quisesse consolidar-se por vinte anos no poder apesar das regras do jogo estabelecidas pela Constituição. Defenderam sem autocrítica as conquistas alcançadas nesses anos, sem levar em conta a qualidade intrínseca das políticas públicas em aspectos nevrálgicos, como educação e saúde. Mesmo nas cidades, podemos observar a péssima situação dos hospitais públicos. Esses problemas tornaram-se elementos de interpelação para a outra Bolívia. Ou seja, para a Bolívia onde o caudilho deixa gradualmente de ter importância, e que exige um governo com planejamento e execução permanentes de políticas estatais que beneficiem a todos os setores. Esses cidadãos demandam programas profundos que não sejam apenas retóricos, mas que também aprofundem a institucionalização de uma Bolívia moderna, respeitando os direitos humanos, sociais e econômicos.

O discurso da vitimização étnica já não basta para essa Bolívia, que deseja melhorias em todo o território nacional. Empunhando a tricolor, os bolivianos atravessaram barreiras entre o urbano e o rural, entre as famílias abastadas e as menos abastadas, entre diferentes cores de pele. Talvez possamos afirmar que a bolivianidade esteja caminhando rumo à superação dos regionalismos, expandindo seu horizonte e fortalecendo a identidade dos bolivianos. É a abertura histórica desta Bolívia que começa a se tornar uma só e na qual, talvez, o exercício da cidadania ativa possa ser consolidado para transformar qualitativamente a esfera pública. Dependerá da consciência histórica e da eficiência com que cada um dos atores leve adiante uma visão do país com solidariedade para todos os seus habitantes e com respeito ao nosso planeta Terra, pois cada um de nós faz a história rumo ao Bicentenário.

 

 

 


Créditos na imagem: Reprodução.

 

 

 

SOBRE OS AUTORES

Hugo Celso Felipe Mansilla

Hugo Celso Felipe Mansilla é membro da Academia de Ciencias de Bolivia, da Academia Boliviana de la Lengua e correspondente da Real Academia Española. Publicou quatro romances e inúmeros livros em alemão e espanhol. Entre suas obras mais recentes estão Tradición autoritaria y modernización imitativa (1999), El carácter conservador de la nación boliviana (2003) e Una mirada crítica sobre el indianismo y la descolonización (2014).

Erika J. Rivera

Erika J. Rivera

Rivera é mestre em ciências sociais e autora do livro Introspección del feminismo (2019).

SOBRE O TRADUTOR

Sérgio da Mata

Sérgio da Mata

Sérgio da Mata é professor do Departamento de História da UFOP.

Fonte: As duas Bolívias | HH Magazine

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