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O cuidado a ter com os cuidados

Publicado em: O cuidado a ter com os cuidados

Apresentação


 As Epistemologias do Sul denunciam, por um lado, as intervenções epistemológicas que geraram a supressão dos saberes ao longo dos últimos séculos, fruto da imposição da norma epistemológica dominante; por outro lado valorizam os saberes que resistiram com êxito e as reflexões que estes têm produzido e investigam as condições de um diálogo horizontal entre conhecimentos.


Cuidar é pensar-agir descentrando-se de si; é prestar atenção; é solicitude; é desvelo; é preocupação e inquietação pelo bem-estar de outrem; é afeição vital pelos bens comuns; é sentir com e é querer sentir com; é uma forma profunda de partilhar a responsabilidade pela vida em todas as suas formas. O cuidado significa uma força poderosa para contrariar a ocupação epistemológica social e ontológica das pessoas, comunidades e territórios, por racionalidades e tecnologias liberais e não-conviviais. O cuidado é a condição da produção incessante da vida em todas as suas formas. O cuidado não diz respeito à domesticidade como as correntes liberais têm tematizado e defendido. Há nele dimensões ontológicas, políticas, ecológicas, sociais e epistemológicas que devem ser pensadas e reflectidas.


Afirmamos que o colonialismo, o capitalismo e o heteropatriarcado criam e mantêm um sistema de privilégios que equaliza mulher e natureza defendendo uma natural vocação das mulheres para a prestação de cuidados. Essa é a ética reacionária do cuidado que tem servido para justificar e manter a subalternidade das mulheres, a acumulação de dinheiro, poder e autoridade por parte de uma pequena elite, e o desprezo pela diversidade da vida. Essa forma de entender o cuidado inferioriza, desqualifica, estigmatiza todos os trabalhos implicados nele – e que são maioritariamente realizados por mulheres – que passam a ser considerados derivativos, residuais e improdutivos. Não só expulsam o cuidado da política e da economia como também reduzem os conhecimentos e competências imaginados, construídos e transmitidos a partir das experiências diversas das cuidadoras – e cuidadores – à impertinência e irrelevância. O desprezo a que foram votados os conhecimentos gerados pelos cuidados, ridicularizando-os e remetendo-os para ‘coisas de mulheres’ tem permitido criar uma hierarquia epistemológica que acompanha a desvalorização política do cuidado tanto nas suas dimensões sociais quanto ecológicas e ontológicas.

Em período de pandemia pelo novo Coronavírus a mais insurgente das reflexões é afirmar que a economia não parou e a vida também não parou. Ao contrário, as economias que produzem a vida incessantemente, as economias do cuidado, estão a funcionar na sua máxima capacidade para proteger, alimentar, abrigar, curar, cuidar, produzir alimentos, limpar, apoiar e amar. Contra-a-corrente da ideia de mais uma recessão económica global, há que espalhar a notícia de que as economias do cuidado estão em marcha, ainda que muitas vezes, silenciadas, desprezadas e fragilizadas. Apesar de tudo elas permanecem, acintosamente, presentes nos nossos dias de confinamento criando alternativas e dando-nos os sinais que precisamos para buscar alternativas que nos podem salvar agora e no futuro.


Neste seminário queremos pensar e falar do cuidado a partir de várias perspectivas, conhecimentos e experiências. Buscamos perceber comensurabilidades e relações entre políticas, epistemologias e ontologias do cuidado. Pretendemos colocar em evidência lutas e práticas do e pelo cuidado da vida em todas as suas formas e redescobrir esse sul – metáfora dos sofrimentos e dos conhecimentos e alternativas gerados nele – que permanece silenciado no norte que habitamos.


Este Seminário adopta a metodologia de Roda de Conversa que começará com a partilha de algumas reflexões de José Soeiro (Sociólogo; Deputado da Assembleia da República), Rita Serra e Teresa Cunha para depois se alargar a toda a audiência.



Pontos de partida:


José Soeiro começará a conversa a pensar a actividade humana a partir dos cuidados e convida-nos a questionar uma concepção androcêntrica e etnocêntrica de trabalho a ampliando e ressignificando o modo como o entendemos. Ele reflectirá sobre as consequências políticas podem ser daí retiradas a partir de vários questionamentos tais como:


– Que formas de reconhecimento do cuidado serão mais emancipatórias e quais as armadilhas de uma valorização social do cuidado que reproduz as hierarquias do mercado e as divisões sociais, internacionais e sexuais do trabalho? Que imaginários de cuidados, que mecanismos de redistribuição e que políticas públicas seremos capazes de criar fora desses marcos?


A partir de pinturas, fotografias e de alguns números, o José Soeiro trará para o debate algumas das contradições que temos vindo a enfrentar nesta reflexão sobre o(s) cuidado(s).



Rita Serra reflectirá a partir duma perspectiva situada, de textos próprios, académicos e personagens de cinema, pretendendo problematizar o que conta como cuidado na sociedade actual, por um lado, em relação ao trabalho, precariedade e desemprego académico, e por outro, em relação a perspectivas da neurodiversidade e deficiência.


Teresa Cunha usará uma racionalidade artesanal na produção de uma auto-etnografia do cuidado que alimentarão algumas reflexões sobre micro-política dos cuidados. Com esse exercício, pretende realçar as fracturas sobre a hegemonia de uma ética reacionária do cuidado e colocar em evidência espaços-tempos imprevistos nos quais se resiste à pulsão não-convivial do capitalismo, do colonialismo e do patriarcado e se reinventam outra economia do desejo e do amor à vida – em todas as suas formas.

 


Atividade no âmbito do ciclo de seminários “Construir as Epistemologias do Sul“.


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Esta atividade realiza-se através da plataforma Zoom, sem inscrição obrigatória. No entanto, está limitada ao número de vagas disponíveis > https://us02web.zoom.us/j/82821819919 | ID: 828 2181 9919


Agradecemos que todas/os as/os participantes mantenham o microfone silenciado até ao momento do debate. A/O anfitriã/ão da sessão reserva-se o direito de expulsão da/o participante que não respeite as normas da sala.


As atividades abertas dinamizadas em formato digital, como esta, não conferem declaração de participação uma vez que tal documento apenas será facultado em eventos que prevejam registo prévio e acesso controlado.

 

Fonte: O cuidado a ter com os cuidados
Feed: Centro de estudos Sociais – Eventos
Url: www.ces.uc.pt

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